
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que o mercado financeiro prefere uma versão moderada do bolsonarismo, mas reconhece que, no campo da direita, quem concentra votos é o ex-presidente Jair Bolsonaro. A declaração foi dada em entrevista ao Estadão, concedida em Brasília, na qual o ministro comentou o cenário eleitoral de 2026, criticou o uso da expressão “CEO do Brasil” associada ao governador Tarcísio de Freitas e defendeu pautas prioritárias do governo.
Ao tratar da disputa presidencial, Boulos afirmou que setores da Faria Lima buscam um nome palatável para substituir Bolsonaro, mas avalia que a base eleitoral da direita permanece ligada ao ex-presidente. Na entrevista, o ministro também abordou a polarização política, a relação com o Congresso e a estratégia do governo para avançar em propostas como o fim da escala 6×1 e a regulamentação do trabalho por aplicativos. Veja os principais trechos da entrevista:
(…)
Estadão – O presidente Lula pediu para o sr. pôr o governo na rua. A que o sr. atribui o fato de a avaliação negativa do governo ter superado a positiva na última pesquisa Genial/Quaest?
Guilherme Boulos – A mesma pesquisa mostrou o presidente favorito para a reeleição em todos os cenários. Hoje tem uma situação da polarização no Brasil e no mundo. O eleitor que se define como de direita vai desaprovar o governo do presidente, por mais que possa sentir melhora na vida dele, por uma razão da polarização ideológica. Acabou a era do consenso.
(…)
Estadão – De que forma o governo tratará do assunto?
Guilherme Boulos – A eleição vai ser marcada por três grandes temas. Primeiro: soberania nacional. Haverá uma discussão com a sociedade se a gente quer um Brasil soberano ou o Brasil como uma colônia dos Estados Unidos. Quem usou o bonezinho do MAGA vai ter que se explicar. Segundo tema: justiça tributária. Esse é o governo que pela primeira vez mexeu no vespeiro de taxar super rico no Brasil e zerar o Imposto de Renda. Terceiro: defesa dos trabalhadores. Este governo defende o fim da escala 6×1.

Estadão – Mas é possível aprovar esse projeto até a eleição?
Guilherme Boulos – Nós queremos aprovar dois projetos importantes ainda neste ano. Um deles é o fim da escala 6×1, com redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição de salário. O segundo é garantir direitos para os trabalhadores de aplicativos.
(…)
Estadão – A segurança pública não deve ser o carro-chefe da campanha de Lula, mas os adversários vão focar nisso. O que o governo propõe?
Guilherme Boulos – Eu estou doido para o Flávio Bolsonaro, se for o candidato, falar de segurança pública porque daí a gente vai falar de milícia do Rio de Janeiro, de Rio das Pedras, de Adriano da Nóbrega, que teve familiar assessor no gabinete dele, de Escritório do Crime. Qual é a autoridade moral do Flávio Bolsonaro para falar de segurança? Nós estamos preparados para fazer debate com qualquer um. Foi Lula que teve a coragem de mandar uma PEC (ao Congresso). Por que os governadores de direita e o Centrão são contra o governo assumir mais responsabilidade na segurança pública? Eles estão dando conta sozinhos? Não me parece.
(…)
Estadão – O sr. acha que o senador Flávio Bolsonaro irá até o fim da disputa pela Presidência ou o governador Tarcísio deve entrar?
Guilherme Boulos – O time da Faria Lima adora um bolsonarismo envernizado. Tudo o que eles querem é um Bolsonaro que coma de garfo e faca, que é o Tarcísio. Mas a Faria Lima não tem voto. Na direita, quem tem voto é o Bolsonaro. Então, na prática, quem o Bolsonaro indicar como candidato, será o candidato.
(…)
Estadão – O sr. vai deixar o governo para disputar as eleições?
Guilherme Boulos – Eu pretendo ficar, porque entrei no governo em outubro. O presidente me fez pedidos, me deu missões, e eu não largo missão no meio do caminho. Mas, lógico, tenho o compromisso de ajudar a construir o palanque em São Paulo.
Estadão – O PT ainda não tem um candidato ao Palácio dos Bandeirantes. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pode ser esse nome?
Guilherme Boulos – Eu vou te devolver com uma pergunta: a direita tem candidato para o Palácio dos Bandeirantes? O Tarcísio vez ou outra flerta (com a ideia de) ser candidato à Presidência da República. A esposa dele esses dias publicou uma nota na rede social dizendo que era o marido dela que deveria ser o novo CEO do Brasil. Tratar um país como se fosse a gestão de uma empresa privada? Isso mostra a cabeça tacanha, a falta de projeto nacional e de projeto popular porque, se o presidente é CEO, ele (Tarcísio) deve enxergar a população como seus empregados. É algo triste até de se ver. Por mais que o Bolsonaro tenha lançado o Flávio, me parece que o grupo do Tarcísio não ficou muito contente com isso. Então, vamos esperar o que eles vão fazer.