Boulos e Erundina venceram também a classe média que brinca de bolchevique. Por Igor Santos

Luiza Erundina e Guilherme Boulos. Foto: Mídia Ninja

Guilherme Boulos é, sem sombra de dúvidas, uma das figuras mais interessantes do cenário político atual. Jovem em um ambiente permeado de cabeças brancas, Boulos faz um discurso notoriamente classista e não titubeia em ir para linha de frente no combate às péssimas condições de transporte, alimentação e principalmente moradia.

Recordo da primeira vez que vi Boulos, o ano não sei precisar, mas era um acampamento na frente do apartamento do Presidente Lula, não era um acampamento a favor de Lula, era um acampamento pedindo mais atenção sobre a política de moradia. Boulos não é chapa branca, está sempre do lado dos trabalhadores e oprimidos.

Em 2016, já ali às portas do golpe, pude conhecer um pouco mais de Guilherme, ele foi para uma reunião com a presidenta Dilma e os movimentos de moradia e eu estava em Brasília por ocasião de um evento que estava cobrindo. Lembro que vi sua fala sobre moradia, elogiando o programa Minha Casa Minha Vida e tecendo críticas às falhas do mesmo programa. Lembro também daquela fala pontuando o que vivíamos, aquela fala alternando momentos de crítica e apoio, não ao PT, mas à luta contra o golpe. Horas depois, encontrei Boulos num restaurante em Brasília e o elogiei, ele e alguns sentaram na mesa ao lado.

A impressão que Boulos me passa é justamente a que tenho da base do MTST, aqueles homens e mulheres periféricas parecem ensinar muito mais a Boulos que o contrário. Uma escola dessas não é para qualquer um.

Erundina também é fantástica, nunca tive aproximação dela, mas estudei e convivo com que pessoas que militaram ao seu lado, no Partido dos Trabalhadores e na Prefeitura de SP. Nunca ouvi uma crítica a respeito de sua conduta, nunca ouvi sequer um burocrata ter coragem de ofender sua memória com alguma bobagem menor.

Erundina é gigante, como são gigantes as mulheres nordestinas.

Poderia agora usar esse espaço para perguntar para Sâmia qual a razão do MES, corrente interna da qual faz parte, ter tanto preconceito de classe. Tanto que fizeram manifestação para os sem teto não entrarem no PSOL em 2018. Podia também perguntar para Sâmia qual a razão do Juntos (juventude lava-jato), em conluio com o Emancipa, ter denúncias de supostamente receberam dinheiro da Odebrecht, apesar de Luciana Genro e outros sentarem na farofa e aplaudirem a Lava Jato. Mas não vou perguntar, estou cansado de uma esquerda que é igual à Sâmia e o MES, um amontoado de jovens de classe média brincando de bolchevique. Mas, quando descem do playgraund (do condomínio ou do Crusp), preferem exercer solidariedade de classe a um juiz ladrão.

Boulos e Erundina são maiores do que essa classe média paulista, representam justamente quem trabalha nessa cidade, multidão de subempregados, desempregados e vítimas da especulação imobiliária, as mulheres e homens nordestinos.

Consciência de classe é mostrar que a luta pode transformar a vida, com um teto digno para morar e condições dignas. Isso uma sinhá branca brincando de bolchevique nunca saberá.

Esse texto foi escrito no ultimo Domingo (19/07) pela manhã, último dia de votação nas prévias do PSOL na Capital Paulista, Guilherme Boulos, a contra gosto de Plinio Junior e do Movimento ‘’Esquerda’’ Socialista (MES), que é uma corrente interna do PSOL, venceu com 61% dos votos. Talvez o discurso cada vez mais distante da classe trabalhadora, aliás os propagadores de um esquerda cada vez menos classista, precisem repensar suas táticas e estratégias.

Quando, em 2018, fizeram manifestação contrária à entrada dos Sem-teto no PSOL, sob pretexto de de Lula retirar as mãos do partido, deveriam ter pensado duas vezes, a classe trabalhadora presente nos discursos e reuniões de DCE, dessa vez quer se organizar na política partidária. Querem protagonismo e não apenas figuração em discursos de acadêmicos decadentes ou jovens de classe média que acham que transformação social é fazer cosplay de bolchevique.

Revolução Solidária para uma cidade que precisa de mais homens e mulheres, não os filhos revoltados dos quatrocentões, mas homens e mulheres trabalhadores. Peça desculpas, Sâmia, faça um exame de consciência, quem apoiou Lava Jato e quem foi contra o protagonismo dos sem teto, certamente está cumprindo um papel de classe, mas esse papel não está a serviço das mulheres e homens periféricos.

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