Brasil é candidato a epicentro do coronavírus e Bolsonaro é candidato a genocida. Por Paulo Pinheiro, imunologista

O presidente Jair Bolsonaro durante o desfile de 7 de Setembro, em Brasília (Foto – Marcelo Camargo/Agência Brasil)

POR PAULO HENRIQUE PINHEIRO, mestre e doutor em Imunologia pela UNIFESP

Nos dias 26 e 28 de janeiro fiz, em meu canal do YouTube dois alertas aos Ministérios da Saúde e da Economia.

Em síntese, os alertas pediam a elaboração urgente de Planos de Contingência para a transformação da epidemia de Covid-19 na China em pandemia, já que a doença começava a chegar na Europa e nos Estados Unidos.

Àquela altura já era claro, para mim e para muitos profissionais da saúde, que seria uma questão de tempo a Organização Mundial da Saúde declarar a Covid-19 como pandemia (fato que ocorreu em 11 de março de 2020). O Brasil registrou o primeiro caso dia 26 de fevereiro de 2020, exatamente um mês após meu primeiro alerta.

Em 30 dias, se o Ministério da Saúde e da Economia tivessem sido acionados pelo Presidente da República para estruturar os Planos de Contingência ante a iminente pandemia de Covid-19, o Brasil estaria em outra situação.

Não só tais Planos não foram feitos como o Presidente ainda foi com sua comitiva para uma viagem questionável para os EUA. No retorno, 23 membros da comitiva testaram positivo para a Covid-19 e há dúvidas se o próprio Capitão não teria a doença.

Se o Ministério da Saúde tivesse adotado uma postura preventiva em portos, aeroportos e postos de fronteira desde o final de janeiro, medindo a temperatura das pessoas e aplicando testes rápidos de Covid-19 por amostragem após anamnese (questionário de saúde) com a subsequente “quarentena” de 15 dias para os casos suspeitos; se tivesse desde o final de janeiro articulado a operação para aquisição de respiradores artificiais, máscaras e insumos para UTI; se tivesse desencadeado uma campanha nacional de esclarecimento e conscientização para o que viria, teríamos ganho ao menos 15 dias a mais para detecção do primeiro caso.

Parece pouco, mas em epidemiologia, isso seria muito relevante.

Se o Ministério da Economia tivesse desde o final de janeiro estruturado com os Governadores, Prefeitos, Câmara dos Deputados e Senado Federal, credores da União, Banco Central, Sindicatos e Federações Empresariais, um Plano de Contingenciamento econômico para o que viria, teríamos a essa altura uma rede de proteção social e econômica estruturada para apoiar a população mais vulnerável e os empresários, a bolsa teria sofrido menos perdas pela demonstração, aos investidores, por parte do Brasil, de ações protetivas antecipadas, consistentes e planejadas.

Mas não, muito ao contrário. O Capitão atleta significou a Covid-19 com uma “gripezinha” e não articulou seus Ministérios para preparar a Nação para o que viria (e ainda virá). A essa altura perdemos tempo de planejar e contingenciar. Temos tempo apenas para apagar incêndios. O Brasil foi privilegiado por assistir ao desastre na Europa e não fez seu dever de casa.

Nessa semana o Imperial College divulgou um estudo assinado por 50 cientistas, liderados pelo Dr. Neil Ferguson, que demonstrou por modelos matemáticos os impactos para o mundo e para o Brasil da pandemia de Covid-19.

No melhor dos cenários, com 75% dos brasileiros confinados em casa (os outros 25% mantendo os serviços essenciais funcionando), teremos 11 milhões de infectados nas próximas semanas com 44 mil mortos. No cenário de isolamento parcial (defendido por Bolsonaro e seus seguidores) teremos 120 milhões de infectados de 530 mil mortes. O pior cenário, prefiro nem falar.

Aqui faço meu terceiro alerta em 60 dias: o Brasil é sério candidato a ser o próximo epicentro da pandemia, após os EUA. A favor desse meu vaticínio – que preferiria não dar – estão alguns fatos: São Paulo, nosso atual epicentro, é uma das maiores metrópoles do mundo.

Possuímos péssimas condições de saneamento e habitação com um grande contingente de aglomerações humanas nas favelas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Manaus, Brasília e Salvador; possuímos apenas 46 mil leitos de UTI distribuídos em apenas 600 cidades do país.

Nossa população envelheceu e se empobreceu e, mais importante que tudo isso, temos um presidente que não governa e um governo desarticulado com os governadores, Câmara dos Deputados, STF, com a imprensa e com boa parte da sociedade civil. Esses ingredientes nos tornam sérios candidatos a sermos a bola da vez da pandemia de Covid-19.

Bolsonaro é, também, sério candidato a genocida. Sua incompetência como chefe do Executivo, suas declarações e posturas nessa crise, incitando e participando das manifestações de 15 de março contra as recomendações da OMS, dando declarações a favor do não isolamento social – única arma que o mundo dispõe, atualmente –,  fazendo um pronunciamento absurdamente desprovido de bom senso e bases científicas e cedendo aos empresários e líderes evangélicos inescrupulosos para retornar as atividades normais no país, se tornará no grande responsável por milhares de mortes (talvez centenas de milhares) que ocorrerão no Brasil.

O Brasil começa a assistir à escalada do número de casos sem ter, a essa altura, muito mais do que fazer senão não dar ouvidos ao Capitão atleta e manter a quarentena.

Perdemos muito tempo e agora precisamos aguentar o tranco que virá. Aparentemente, o colapso no sistema de saúde deverá ocorrer no final de abril desencadeando ondas sistêmicas: a primeira será a grande procura pelos sistemas de saúde que lotarão leitos e UTIs; a segunda será o aumento da mortalidade pelo fato do sistema de saúde colapsado devolver doentes de Covid-19 e de outras doenças (AVC, infarto, acidentes, etc) para suas residências e lá, sem cuidados intensivos, terão elevada probabilidade de morrerem; a terceira será o fato de que hospitais lotados de pacientes com Covid-19 terão o vírus circulando em grande quantidade e profissionais de saúde adoecerão e ficarão ‘fora de combate’ (vide exemplo do Dr. David Uip e outros).

Haverá uma quarta onda sistêmica. Essa quarta onda nada mais será que o empobrecimento de quase todos. Só não estarão mais pobres os financistas de plantão pois estes estarão emprestando dinheiro para pessoas físicas, jurídicas e para o próprio governo para a conta da Covid-19.

Talvez, com um governo sério e comprometido, aos financistas caberia uma boa fatia de ‘colaboração forçada’ para a crise.

O vírus foi um acidente evolutivo. Bolsonaro é um acidente de nossa democracia. O segundo, bem pior que o primeiro.

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