Brasil está à beira do caos e provocações de Bolsonaro se tornaram ameaças, diz jornal alemão. Por Nathália Bignon

Montado em um cavalo da PM, sem máscara, Bolsonaro se junta aos aglomerados em Brasília. Foto: Reprodução/YouTube

O Frankfurter Allgemeine, um dos jornais de mais prestígio na Alemanha, voltou a repercutir o cenário político criado por Jair Bolsonaro (sem partido), afirmando que o Brasil não está muito longe do caos.

O diário recordou que apoiadores de Bolsonaro saíram novamente às ruas no último fim de semana pedindo, de forma clara, o fechamento de instituições democráticas, temendo que o presidente fosse deposto e que o medo de uma ditadura é algo crescente entre membros da oposição.

Atos antifascistas
Fazendo menção ao desfile protagonizado pelo presidente brasileiro, com direito a helicóptero da Força Aérea, passeio a cavalo entre manifestantes, o jornal destacou que, pela primeira vez, opositores a Bolsonaro e apoiadores se encontraram nas ruas.

“A iniciativa partiu de torcidas organizadas de vários clubes de futebol que pediam o fim de ‘atos antifascistas’ em São Paulo e no Rio de Janeiro. Houve vandalismo e confronto entre torcedores e apoiadores de Bolsonaro, assim como com a polícia, que usou gás lacrimogêneo e balas de borracha”, diz um trecho da matéria.

Ku Klux Klan
O jornal mencionou ainda a “manifestação no estilo da Ku Klux Klan” realizada no sábado passado, afirmando que a idealizadora do ato, Sara Geromini, minimizou a semelhança da marcha com o simbolismo do clã. “A ideia veio de um membro judeu”, disse.

Diante do cenário, o periódico afirma que, desde as últimas eleições, o clima em Brasília chegou ao “ponto de ebulição”. Bolsonaro vê a investigação [contra as fake news] como outro ataque contra ele. Já existem três dezenas de pedidos para um procedimento de retirada. “Basta!”, ele disse no dia das buscas realizadas nas casas de apoiadores. “Não haverá mais um dia como este”.

Ameaças
Segundo o Frankfurter Allgemeine, as “provocações se tornaram ameaças” e reitera que, na semana passada, Bolsonaro compartilhou um vídeo no qual um advogado fazia referência a um artigo constitucional controverso, defendendo o uso do Exército como uma “força moderadora” se os outros poderes deixarem o presidente em um “beco sem saída”.

“Tais alusões também vêm de representantes do Exército no governo. O general Augusto Heleno, ministro de Segurança Institucional de Bolsonaro, havia ameaçado ‘consequências imprevisíveis’ há alguns dias, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) enviou uma solicitação do Congresso para apreender o telefone celular de Bolsonaro”.

“Os generais do governo, que antes eram considerados moderados, estão unidos resguardando Bolsonaro. Seus membros criticam o fato de ações do judiciário e da legislatura restringirem a autoridade e a capacidade de agir do presidente”, diz adiante.

Medo
O diário alemão também relata o medo crescente por parte da oposição e afirma que Bolsonaro permitirá que “o país caia no caos se ele continuar sob pressão legal e política. Dessa maneira, ele próprio poderia criar as condições para a intervenção do Exército, para que o Congresso e os tribunais sejam finalmente anulados”.

Intervenção militar
Com meio milhão de casos confirmados pela covid-19 e mais de 30 mil mortes registradas pela doença, o jornal ressalta que as consequências econômicas da crise serão graves e aumentam as tensões entre a população. “Caso haja mais confrontos entre apoiadores de Bolsonaro e seus adversários nas próximas semanas, a intervenção do Exército não será mais um erro”.

Celso de Mello
Segundo a reportagem, uma carta enviada pelo juiz Celso de Mello aos outros magistrados da Suprema Corte mostra até onde chega o medo no país. “Mello, que não é conhecido por exacerbações e polêmicas, alertou para uma ditadura militar no Brasil. Ele chegou ao ponto de comparar a situação atual no Brasil com a República de Weimar. ‘É necessário resistir à destruição da ordem democrática para impedir o que aconteceu na República de Weimar’, escreveu Mello. O ‘ovo da cobra’ ameaça se abrir”, conclui o jornal.

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