Brasil, EUA e Austrália são acusados de bloquear avanços na COP 25

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, está em Madri para participar da COP-25 Foto: Reprodução/Twitter

PUBLICADO NA RFI

POR LÚCIA MUZELL

Na reta final da Conferência do Clima de Madri, COP 25, representantes da Coalizão para uma Alta Ambição, um grande grupo que inclui diversos países mais vulneráveis às mudanças climáticas, e a União Europeia, fizeram um último apelo para que os negociadores respondam à emergência do clima. Tratam-se de países que correm o risco de simplesmente desaparecer do mapa, se mais ações não forem tomadas para limitar o aquecimento do planeta a no máximo 2°C, até o fim deste século.

O representante da Costa Rica citou o Brasil como um dos três países que bloqueiam a conferência, ao lado dos Estados Unidos e a Austrália. “Estamos muito longe de um acordo sobre o Artigo 6”, afirmou Carlos Manuel Rodriguez, ministro do Meio Ambiente e Energia costarriquenho, a respeito do trecho sobre o mercado de carbono, que se tornou o foco das negociações.

“Os problemas são relacionados à dupla contagem [da redução de emissões que se transforma em créditos de carbono], à manutenção de unidades adquiridas sob o Protocolo de Kyoto e às garantias ambientais e de direitos humanos. Precisamos entender que sem uma compreensão clara de que esses são pontos não-negociáveis, não seremos capazes de avançar”, ressaltou, antes de nomear os responsáveis pelo bloqueio nestes pontos.

Sem solidariedade com países pobres

O mercado internacional de carbono visa que os países que emitiram gases demais poderão compensar essa poluição comprando créditos de CO2 daqueles que conseguiram despejar menos gases do que previam as suas metas. Há diversos tipos de cálculos possíveis para viabilizar essas transações. Porém, alguns deles fariam com que a redução de emissões de gases de efeito estufa fosse ainda menor do que é hoje – e não mais alta, como defendem os cientistas e a ONU. Com os compromissos atuais, a temperatura do planeta poderá subir 3,2°C, adverte as Nações Unidas.

O governo brasileiro tem sido acusado de só estar focado nas questões econômicas e em arrecadar recursos financeiros, e não em combater as mudanças climáticas, pelo perigo que elas representam para a toda a humanidade. O chefe da delegação brasileira, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem usado a expressão “protecionismo ambiental” para definir a posição dos países ricos que, segundo ele, se recusam a pagar a conta das emissões já realizadas no passado pelas nações industrializadas.

Na quinta-feira (12), ele insistiu que está na COP para defender o interesse dos brasileiros, e “não dos outros países pobres”. Salles também considerou que o Acordo de Paris sobre o Clima, acertado em 2015, prejudica o Brasil.

“Nos comprometemos com coisas e depois a sociedade brasileira teve que arcar com o ônus de quem nos representou”, afirmou, acusando o governo da época, de Dilma Rousseff, de “querer sempre sair bem na foto” na comunidade internacional. “Eu acho que nós devemos demais e recebemos de menos”, avaliou.

Gerações futuras

Tina Stege, do governo das Ilhas Marshall, um dos arquipélagos ameaçados pela alta dos oceanos devido ao aquecimento global, demonstrou determinação em manter a pressão até o fim da COP. “Não sairemos daqui sem um aumento da ambição de todos os países. Isso é o que foi acertado em Paris – e que o meu país já fez. Mas todos precisam fazer também para as gerações futuras, inclusive os jovens que estão lá fora protestando”, declarou.

Centenas de jovens realizaram uma última manifestação para pressionar por um acordo ousado entre os 196 países. Foi mais um movimento das Sextas-feiras pelo Futuro, lançado pela adolescente sueca Greta Thunberg.

O protesto aconteceu dentro da conferência, mas também no centro de Madri e em outras dezenas de cidades espalhadas pelo mundo. Decepcionada com o rumo das negociações, Greta não esperou o fim do evento e já deixou a Espanha.

Os países reunidos na COP 25 negociam os termos da implementação do Acordo de Paris sobre o Clima, que entra em vigor em 2020. Porém, a um ano do prazo, ainda não há definições sobre como vai se operar o financiamento dos países ricos para as nações pobres se adaptarem às mudanças climáticas. A conferência deveria se encerrar nesta sexta-feira, mas a prorrogação das negociações já é dada como certa até sábado (14).

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