
A ordem executiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para retirar o país de 66 organizações internacionais repercutiu imediatamente no Brasil. Um levantamento mostra que o país mantém algum tipo de participação em 34 dessas entidades, seja como membro, parceiro institucional ou beneficiário de projetos financiados.
Entre os organismos impactados estão instituições que acompanharam as eleições brasileiras de 2022 e fundos que destinaram mais de US$ 2 milhões a iniciativas nacionais nas últimas duas décadas.
Das 66 organizações, 35 estão fora do sistema ONU e 31 integram a estrutura das Nações Unidas. Trump justificou a retirada alegando que essas instituições atuariam “contrárias aos interesses dos EUA”.
No caso dos organismos da ONU, a medida implica suspensão de financiamento ou interrupção da participação, conforme autorização legal do governo estadunidense. O Brasil, por sua vez, está presente em 19 das entidades externas à ONU e em outras 15 internas, além de ser beneficiário de programas executados por dez delas.
O Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA Internacional) é um dos alvos da ordem. O Brasil é Estado-membro, e o organismo atuou como observador eleitoral em 2022. Após a votação, declarou que o sistema eletrônico de votação “funcionou plenamente” e destacou a imparcialidade da Justiça Eleitoral.
As manifestações ocorreram em meio à campanha do PL e de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para desacreditar as urnas sem apresentar provas. A contestação antecedeu o julgamento que levou à condenação do ex-presidente por participação na trama golpista. Trump, meses antes, havia classificado Bolsonaro como vítima de “caça às bruxas” e o defendeu publicamente.

Outro órgão impactado é o Fundo da ONU para a Democracia (UNDEF), que financiou nove projetos no Brasil entre 2007 e 2025, somando US$ 1,9 milhão. Entre eles, iniciativas voltadas ao fortalecimento da governança climática, apoio a familiares de vítimas de violência estatal e ações de participação cidadã em decisões políticas.
Projetos anteriores envolveram monitoramento de direitos humanos, transparência na educação pública, liberdade de informação e incentivo à participação política feminina.
Organismos ligados ao comércio também serão afetados. O Centro de Comércio Internacional (ITC), que atua em parceria com a ApexBrasil, coordena o programa SheTrades, dedicado a ampliar a presença de mulheres no comércio exterior.
A agência também trabalha com pequenos agricultores e negócios de impacto social, especialmente na Amazônia, promovendo acesso a cadeias produtivas e oportunidades de investimento.
Na área ambiental, a saída dos Estados Unidos impacta a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade (IPBES). No Brasil, um dos destaques é o Projeto Baía de Araçá, voltado ao estudo de ecossistemas e sua relação com políticas públicas ambientais.
A Comissão de Veneza, órgão do Conselho da Europa que analisa sistemas constitucionais e reformas legais, também está na lista. O Brasil participa por meio de representantes do STF, como a ministra Cármen Lúcia e o ministro Gilmar Mendes.
Outras entidades mantêm atividades relevantes no país. O Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU coopera com a Itaipu Binacional na produção de ferramentas e diagnósticos sobre a Agenda 2030. Já o UNITAR opera o CIFAL Curitiba, centro de capacitação internacional criado em 2003 e dedicado ao desenvolvimento urbano sustentável.