Brasil, o país onde tudo é tratado como doença mental, menos as doenças mentais. Por Nathalí Macedo

O ano é 2017. No Brasil, um juiz de primeiro grau libera o tratamento da homossexualidade como doença. Para ele, não interessa o fato de que desde a década de 90 o Conselho Regional de Psicologia deixou de tratar a homossexualidade como doença.

O que me salta aos olhos neste caso não é o retrocesso – vivemos afinal no país dos retrocessos – mas a crescente e assustadora síndrome de Deus dos juízes brasileiros de primeiro grau.

Juiz contrariando o Estatuto da Criança e do Adolescente ao admitir surra de fio de eletricidade como medida corretiva para crianças, juíza censurando a imprensa – alô, HELICOCA! -, juiz contrariando o Conselho Regional de Psicologia ao admitir a homossexualidade como doença bem no século do empoderamento LGBT, juiz contrariando a constituição para aplicar um golpe de Estado…

É dose pra elefante.

Tudo bem que essa casta sempre se comportou como uma rainha incontestável no pedestal da moralidade, mas confessemos: o judiciário brasileiro está passando dos limites.

Talvez porque um juiz partidário, parcial e desonesto ganhou confetes na mídia e até um filme ruim (que, para ele, mesmo sendo ruim, está de bom tamanho) por ajudar a destituir do poder uma presidenta que comprovadamente não cometeu crime algum e perseguir, sem provas, o ex-presidente Lula por razões nitidamente políticas.

A crise de legitimidade do Poder Judiciário brasileiro tem tornado as coisas tão esdrúxulas que os retrocessos parecem piada.

Mas não são.

Estamos, pouco a pouco – a mercê de um judiciário desorganizado, desacreditado e corrupto – sendo jogados no abismo do totalitarismo, e permanecemos de braços cruzados.

Fora que, no Brasil, tudo é doença mental: estuprador é doente mental, ejaculador do ônibus é doente mental, criminosos de colarinho branco são doentes mentais, pessoas que amam pessoas do mesmo sexo são doentes mentais…

Apenas os doentes mentais não são tratados como doentes mentais.

Por aqui, depressivos são vistos como preguiçosos e vitimistas. Pessoas com síndrome do pânico só querem chamar atenção. Transtorno borderline não é tão ruim assim.

Procure um psiquiatra no SUS e surte na fila. Procure um psicoterapêuta a preço acessível e morra tentando. O poder público está, afinal, ocupado “curando” gays.

Eu e meus amigos gays e bissexuais não precisamos de cura – precisamos de um país de cujas leis não nos violentem.

O poder judiciário brasileiro, esse sim, está seriamente doente.

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