Brasileirão tem dezenas de casos de covid-19, e retorno do futebol é criticado. Por Felipe Mascari

CSA e Guarani entraram em campo pela Série B do torneio nacional. Um dia antes da partida, time de Alagoas anunciou que oito jogadores testaram positivo para covid-19. Foto: Augusto Oliveira/Ascom CSA

Publicado originalmente no site da Rede Brasil Atual (RBA)

POR FELIPE MASCARI

O campeonato brasileiro de futebol voltou no último final de semana, mas com inúmeros problemas em função da pandemia do novo coronavírus. Dezenas de atletas testaram positivo para a covid-19 e partidas do Brasileirão foram adiadas.

Os casos mais recentes levantaram o debate sobre a volta precoce do esporte, diante dos 101 mil mortos pela doença e da falta de controle sobre a disseminação do vírus. Levantamento feito pelo site Globo Esporte mostra que, desde o retorno do futebol profissional, em junho, ao menos 151 jogadores dos clubes da série A, a principal divisão, testaram positivo para covid-19.

O jornalista Chico Garcia, da TV Bandeirantes, afirma que os adiamentos das partidas são o retrato da gravidade da situação sanitária do país. “O adiamento do jogo entre Goiás x São Paulo foi um suco de Brasil, com irresponsabilidade, desorganização, bagunça, desgaste. Só um reflexo de como o país trata essa pandemia”, disse, nas redes sociais.

Estreia sem jogo

O São Paulo viajou até Goiânia e entrou em campo, no último domingo (9), mas não houve jogo. Horas antes da partida, dos 26 exames realizados em jogadores do Goiás, 10 testaram positivo para o novo coronavírus, sendo oito titulares.

Avisado momentos antes da partida, o clube do Centro-Oeste tentou o adiamento e não obteve posicionamento da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A suspensão foi determinada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), faltando poucos minutos para o início do jogo.

O jornalista Ubiratan Leal, da ESPN e Central3, criticou a falta de ações para barrar o confronto. “Só de existir uma discussão sobre a realização do jogo já foi uma vergonha. Deixar isso para 10 minutos antes do pontapé inicial é surreal. Era para ser adiamento automático, e o protocolo deveria prever isso. Sem conversa.”

O também jornalista Walter Falceta publicou um texto no qual chama a atenção para a possibilidade de aumento de contágios caso a partida ocorresse. “Como cerca de 250 pessoas são mobilizadas direta ou indiretamente para um jogo desses, todos poderia ter sido infectados caso o jogo tivesse ocorrido. Se pensarmos nas famílias desses profissionais, mil pessoas teriam corrido o risco de contrair a doença”, alertou.

Divisões inferiores

Ainda no mesmo domingo, Imperatriz (MA) e Treze (PB), um dos jogos da primeira rodada da série C do Brasileirão, também foi adiado. A decisão foi tomada após 12 dos 19 jogadores relacionados pelo time maranhense terem testado positivo.

Novamente, a decisão foi tomada apenas momentos antes do horário marcado para partida, que ocorreria em Campina Grande. A justificativa para o adiamento é de que não haveria tempo hábil para substituir os jogadores, sem levar em consideração o contato que outros atletas já tiveram contato com os infectados.

“O Imperatriz se deslocou até Campina Grande. A delegação foi de ônibus até Belém, de lá um voo para João Pessoa, com conexão em São Paulo e deslocamento terrestre até Campina Grande. No teste, 12 atletas com covid. Quantas pessoas foram expostas?”, questionou o advogado Diogo Cabral, da Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos.

Por outro lado, no sábado (8), CSA e Guarani entraram em campo pela série B do torneio nacional. O time de Alagoas anunciou na noite da sexta (7) que oito jogadores haviam testado positivo para covid-19 e iniciado o período de isolamento. A partida foi mantida pela CBF.

O jornalista esportivo Fernando Graziani lamentou a postura da Confederação ao não considerar a possibilidade de transmissão do vírus entre atletas. “Ficou claro para a CBF: se for possível substituir contaminados, não importa o número. Prioridade é o calendário. CSA com oito atletas com Covid, deu tempo de substituir, então teve jogo com o Guarani. Como não deu tempo de substituir, jogos de Goiás e Imperatriz foram adiados.”

O tamanho da irresponsabilidade foi constatado na manhã desta terça-feira (11). Exames realizados pelo CSA revelaram que mais 9 atletas foram contaminados, totalizando 18 jogadores em menos de uma semana. Com apenas nove jogadores aptos a entrar em campo, a partida do clube alagoano contra a Chapecoense, válida pela segunda rodada, foi adiada.

Outros casos de jogadores contaminados foram registrados na série C, mas sem a suspensão da partida. O Ypiranga, do Rio Grande do Sul, foi a Santa Catarina para enfrentar o Brusque. Cinco atletas estavam contaminados. Já o Vila Nova, de Goiás, enfrentou o Manaus. Durante a viagem, o clube descobriu que também tinha um contaminado no grupo. Todos foram isolados e as partidas ocorreram sem os atletas infectados.

Protocolo falho

A CBF anunciou ontem alterações no protocolo de testagem das competições nacionais. Entre as mudanças, está o aumento do número de testes realizados pelos participantes da competição.

“Todos os jogadores dos elencos dos clubes, inscritos na competição correspondente, serão testados a cada rodada, com 72 horas de antecedência a cada partida, independente de estarem ou não relacionados para o jogo”, disse a entidade, em nota.

Apesar do protocolo adotado pela CBF, jogadores não estão seguros. O zagueiro Breno Calixto, do Treze, protestou nas redes sociais contra a exposição. “Você faz todo o protocolo, se tranca num hotel, perde o Dia dos Pais e no final não tem jogo. E o pior, já pensou se nós jogamos contra os caras com 12 positivos? A merda que ia ser? Todo mundo infectado, e nossas famílias depois? Que desorganização no nosso país, é na política, é no futebol, é em todo lugar mesmo”, publicou no Twitter.

O atacante Mateus Fernandes, do Manaus, também fez críticas nas redes sociais. “Lamentável planejamento da CBF. E olha que estamos falando da entidade maior do nosso futebol. Precisa de um pouco mais de organização, pois não é um pênalti perdido ou um acesso que não veio, mas estamos falando de vidas em risco, que uma vez ceifada, não terá segunda chance.”

Walter Falceta acrescenta, no texto, que o retorno do futebol, em tempos de pandemia, “revela irresponsabilidade de autoridades e leviandade dos torcedores”. “Não apenas naturaliza a tragédia, encampando a tese da gripezinha, como efetivamente coloca em risco a saúde dos profissionais e da saúde. O futebol deveria ser rito civilizatório e não roleta russa da barbárie.”

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