Brasileiros fazem festas clandestinas em áreas de quarentena nos EUA. Por Cezar Xavier

Maioria dos frequentadores de festas clandestinas é jovem, não usa máscaras e ignora distanciamento social

Publicado originalmente no Vermelho:

Por Cezar Xavier

Lideranças comunitárias de pequenas cidades de Massachusetts estão denunciando grandes festas clandestinas noturnas organizadas em plena pandemia por promoters de famílias brasileiras. As festas acontecem em Everett, Framingham, Saugus, Sommerville e Revere, todas nos arredores de Boston, onde se concentra a maior comunidade de brasileiros nos Estados Unidos.

Everett, por exemplo, com seus pouco mais de 40 mil habitantes, é uma das quatro cidades mais atingidas pela doença no estado de Massachusetts. Segundo a imprensa local, as festas “superdisseminadoras” do vírus, dificultam a saída da cidade do alerta vermelho, prejudicando a economia local.

As “festas de estacionamento” reúnem até milhares de pessoas sem máscaras sob o título de Baile Do Monstro (Monster Ball) nas últimas semanas. “A Covid nunca me manteve distanciado”, anuncia um dos convites espalhados entre brasileiros. As informações sobre dimensão da festa, vídeos e fotos podem ser colhidas na própria divulgação em redes sociais.

As multidões são vistas dançando em volta de caixas de som instaladas nos porta-malas de caminhonetes. A maioria dos frequentadores é jovem, não usa máscaras e ignora recomendações de distanciamento social.

As reclamações de vizinhos acabaram chegando à imprensa, autoridades e polícia local levando à prisão de organizadores. A comunidade, então, se organiza em feijoadas para arrecadar recursos para pagar a fiança dos presos.

O prefeito Carlo DeMaria disse que tais coisas não serão toleradas em Everett, mesmo ocorrendo em áreas remotas. “Todas e quaisquer reuniões que vão contra as diretrizes estabelecidas pelo governador são desaprovadas e não serão toleradas na cidade de Everett”, disse ele em um comunicado, anunciando o patrulhamento nos locais de possíveis festas “monstro”.

Lideranças comunitárias brasileiras como Marcony Almeida Barros e a vereadora Stephanie Martins criticam as festas e defendem a responsabilização dos promotores e participantes. “Não acho que o comportamento deles represente o comportamento da comunidade brasileira em Everett e fora da cidade. (…) Eles devem ser responsabilizados pelas autoridades e punidos em toda a extensão da lei por “brincar” não apenas com suas vidas, mas com aqueles que vivem em suas comunidades.”

A vereadora Stephanie Martins disse que também tem sido incomodada por essas festas no estacionamento, bem como pelas muitas festas que acontecem em quintais e casas em todo o bairro em qualquer noite. “Com essas festas, há preocupações reais não só em termos da Covid-19, mas também com o uso de drogas por adolescentes durante as grandes festas”, disse ela. “Tive vários pais e membros da comunidade brasileira que pediram mais fiscalização e me reuni com a polícia para tratar desse assunto”, disse.

Os números da pandemia naquela região mostram uma correlação entre a idade jovem dos novos infectados e o comportamento da juventude em relação à pandemia e o distanciamento social.

‘Ultrajante’

As festas foram tema da reportagem principal de um jornal da cidade de Everett, que fica a apenas 6 km de Boston, com o título “Um ultraje”.

O incômodo é maior devido ao fato dos parques da cidade terem voltado a fechar devido à alta de contaminações, assim como as escolas que continuam fechadas com aulas à distância.

Segundo as regras locais, reuniões em áreas abertas com mais de 50 pessoas estão proibidas e qualquer encontro deve respeitar regras de distanciamento e uso de máscara. A multa para quem desrespeita as regras pode chegar a US$ 490 (ou R$ 2.750).

Car meetings

A origem dos encontros é antiga – e se baseia em uma cultura de “car meetings”, ou encontros de carros, nos quais donos de carros esportivos se reúnem em postos de gasolina e exibem seus veículos embalados por caixas de som potentes e bebida. Estes eventos são organizados em grupos fechados no Facebook e no WhatsApp.

Os organizadores costumam ganhar fama por meio da organização dos encontros gratuitos ao ar livre. Quando se tornam conhecidos, começam a promover eventos pagos em locais fechados. Segundo autoridades policiais, quando as viaturas chegam ao local, há dispersão imediata dos carros, o que dificulta o controle das festas.

Há brasileiros que criticam como racismo a reação das autoridades locais, considerando que outras comunidades também fazem festas clandestinas. Mas outros ficam constrangidos pela associação entre o desrespeito com o combate à doença e a comunidade brasileira.

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