“Brincar com a imagem de Deus não é intolerância. Intolerância é não querer deixar que brinquem”, diz Porchat

Especial de Natal Porta dos Fundos. Foto: Divulgação

Publicado originalmente pela Rede Brasil Atual:

O termo “integralismo” foi o mais buscado nas redes sociais no Brasil no Natal deste ano. Isso porque um vídeo divulgado pelo Comando Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira reivindicou a autoria do ataque a bomba à sede da produtora Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, na madrugada de 24 de dezembro último.

O ataque teria sido uma represália ao Especial de Natal do Porta dos Fundos deste ano, exibido pela Netflix, e no qual Jesus é retratado como gay.

Em vídeo, a BBC Brasil explica o que é esse movimento de extrema-direita, em atividade desde os anos 1930, e que segundo o professor de História Leandro Pereira Gonçalves nunca deixou de existir no Brasil. “É a expressão máxima da extrema-direita brasileira”, afirmou o especialista da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de livros sobre o tema, em entrevista à emissora pública britânica.

Em artigo publicado no jornal O Globo, nesta segunda-feira (30), o humorista Fábio Porchat questiona o ataque e as supostas razões dos criminosos. “Sátiras são fundamentais para que uma sociedade democrática (como, por acaso, ainda é o Brasil) possa rir de si mesma. Ah, Fabio, mas, se eu fizer uma piada com a sua família, dizendo que eles são todos uns imbecis e babacas, você vai gostar? Não, não vou. Mas você pode fazer.”

Viva Jesus

Porchat, que faz o papel de Orlando, o namorado gay do Jesus interpretado por Gregorio Duvivier no Especial de Natal, lembra que satirizar a Bíblia não é contra a lei, mas chutar a Nossa Senhora é. “Depredar centros de Umbanda é contra a lei. Dizer que você tem que parar de tomar remédio e só quem cura é Deus é contra a lei. Jogar coquetel-molotov em uma produtora porque não gostou do que ela produziu é contra a lei”, reforça.

“E, veja, brincar com a imagem de Deus não é intolerância. Intolerância é não querer deixar que brinquem. Impedir alguém de professar a sua fé, de acreditar no que quiser acreditar — porque existem várias religiões, sabia? —, de demonstrar a sua fé, isso é intolerância.”

O artista chama a uma reflexão: “o Porta dos Fundos fez Especial de Natal em 2013, 14, 15, 16, 17, 18 e nunca houve nenhuma reação violenta direta. Por que será que, em 2019, algumas pessoas se sentiram à vontade para atirar coquetéis molotovs na nossa porta? O que mudou neste ano especialmente para que pessoas tivessem essa audácia justamente agora? Eu tenho um palpite. E você?”, ironiza.

“Sabe quando na infância a criança acende uma bombinha e joga no bueiro pra ver sair dali barata? O Especial de Natal do Porta dos Fundos é essa bomba, só que desse bueiro saíram baratas, ratos e monstros. E me orgulho de fazer parte de um núcleo criador que escancara nossa podridão. E, se você foi um dos que comemoraram as explosões, ou concordou com elas, ou as justificou de alguma forma, sinto dizer, talvez você seja uma das baratas, dos ratos ou pior, um dos monstros. Viva o humor! Viva a liberdade de expressão! Viva a tolerância! E, por que não, viva Jesus!”

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