“Cada mentira gera uma dívida com a verdade”: a lição de “Chernobyl” para Moro e a Lava Jato. Por Sacramento

A série Chernobyl e Sérgio Moro. Foto: Divulgação/AFP

A série “Chernobyl” traz uma mensagem oportuna ao clima político deixado pela divulgação das conversas inadequadas entre Sergio Moro e os procuradores da operação Lava Jato.

“Quanto custam as mentiras? Não é que vamos confundi-las com verdades, o perigo é ouvir tantas que já não reconheçamos a verdade”, diz o personagem Valery Legasov nos primeiros minutos da obra sobre o desastre nuclear da usina de Chernobyl, símbolo dos riscos de colocar os propósitos políticos acima do interesse público.

Legasov era um renomado químico soviético e foi designado para integrar a comissão de cientistas composta para descobrir as causas do desastre, buscar alternativas para conter o incêndio no reator destruído pela explosão e evitar tragédias futuras. Guiava-se pelo anseio de proteger vidas humanas, de servir ao povo antes de atender aos interesses da “nomenclatura” soviética.

Por outro lado, em nome dos interesses desta elite política, a cidade de Pripyat só começou a ser evacuada 36 horas após a explosão do reator, sendo que uma ação imediata diminuiria a exposição dos moradores às doses altíssimas de radiação.

O próprio acidente só veio a público após a detecção da radiação na Suécia. A todo tempo, a narrativa oficial soviética atuou no sentido de minimizar os efeitos do desastre, mesmo que a desinformação contribuísse para casos de intoxicação aguda por radiação ou de câncer no longo prazo.

A série da HBO se aproveitou da licença poética para inserir Legasov no julgamento dos acusados pela explosão do reator, situação que na realidade não aconteceu. Assim como o discurso que proferiu no tribunal, uma síntese do desastre e da postura adotada pelo governo.

“Quando a verdade ofende, nós mentimos e mentimos, até que não lembramos que ela existe, mas a verdade ainda existe. Cada mentira que contamos gera uma dívida com a verdade. Cedo ou tarde essa dívida deve ser paga. É assim que o núcleo de um reator explode”.

Este pequeno e poderoso trecho, criado pelo roteirista Craig Mazin, se adapta a muitos contextos, inclusive às práticas promíscuas entre juízes e promotores reveladas pelos vazamentos do “The Intercept” e negadas a todo momento pelos envolvidos.

A diferença, no caso de Moro, Dallagnol e seus asseclas, é que não há reator em jogo e sim a democracia.

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