
Um dos ativos apresentados pelo Banco Master como parte da proposta de ressarcimento ao BRB (Banco de Brasília) está no centro de uma disputa judicial que se arrasta há cerca de 30 anos e levanta dúvidas sobre sua efetiva capacidade de gerar recursos. Trata-se de um terreno localizado em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, avaliado em centenas de milhões de reais, mas atualmente bloqueado pela Justiça.
O imóvel, com área de aproximadamente 76 mil metros quadrados, pertence às empresas Brazil Realty SA e MG II Empreendimentos, controladas pelo fundo de investimentos Supreme Realty. Segundo o Uol, o Banco Master ofereceu ao BRB cerca de R$ 500 milhões em cotas desse fundo, além de outros ativos, como tentativa de compensar um rombo estimado em R$ 12,2 bilhões, conforme revelado pela Folha de S.Paulo.
De acordo com informações do próprio fundo, o terreno foi avaliado em R$ 300 milhões em dezembro de 2023. No entanto, documentos judiciais indicam que o imóvel enfrenta um impasse antigo.
Ele foi adquirido em 1995 pela Tropical Clube, empresa de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, por R$ 1,8 milhão, a ser pago em 18 parcelas de R$ 100 mil. De acordo com ação que tramita no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o vendedor alegou nunca ter recebido os valores.
Mesmo após um acordo firmado em 2022, os pagamentos não teriam sido realizados. Em dezembro de 2025, a Justiça determinou o arresto da matrícula do imóvel, bloqueando qualquer possibilidade de venda para garantir o pagamento da dívida. Com isso, o ativo não poderia ser negociado para gerar recursos imediatos ao BRB.

Outro ponto que chama atenção é a valorização atribuída ao terreno. Em 2020, quando o imóvel foi transferido para empresas ligadas ao fundo, ele foi avaliado em R$ 67 milhões. Desde então, não houve obras, benfeitorias ou mudanças urbanísticas que justifiquem a elevação para R$ 300 milhões, segundo fontes ligadas à investigação.
A fragilidade das avaliações não se limita a esse caso. Investigadores acreditam que parte relevante dos cerca de R$ 10 bilhões em ativos oferecidos pelo Master ao BRB apresenta problemas semelhantes. A operação é investigada no STF em inquérito sob relatoria do ministro Dias Toffoli.
Além da disputa judicial, o fundo Supreme Realty é alvo de apuração na CVM por suspeita de inflar o valor de ativos para fraudar investidores. Em dezembro do ano passado, a autarquia rejeitou uma proposta de acordo apresentada pelos investigados. Segundo a CVM, investidores que compraram cotas do fundo entre 2018 e 2020 podem ter sofrido prejuízos de ao menos R$ 6 milhões.
A autarquia apontou inconsistências no laudo de avaliação do terreno, que utilizou valores de referência entre R$ 3,1 mil e R$ 3,9 mil por metro quadrado sem identificar os imóveis comparados e sem assinatura da empresa responsável pelo parecer. Foram incluídos entre os investigados o Banco Máxima (antigo nome do Master), Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro e empresas ligadas à família.