Camila Pitanga e a politização do afeto: não basta amar mulheres, é preciso afirmar esse amor. Por Nathalí

Camila Pitanga está namorando uma mulher Foto: Tavinho Costa/ reprodução/ instagram

O novo relacionamento de Camila Pitanga virou assunto de repercussão considerável nesta semana, e talvez a repercussão não fosse tão considerável acaso se tratasse de uma relação heterossexual, mas o fato é que o relacionamento em questão é com uma mulher – e torná-lo público implica em muitas coisas, inclusive na afirmação da própria bissexualidade.

A atriz de 42 anos – pasmem! – é o que se pode chamar de uma artista discreta. Sua vida íntima nunca foi manchete, ou ao menos não por sua vontade. No Instagram, só trabalho, amigos, foto-poemas e uns posts militudos-progressistas queridíssimos. A namorada, a artista plástica Beatriz Coelho, também não parece exatamente dada a exposições – suas redes sequer são abertas ao público. Por quê, então, declarar publicamente esse amor?

São tempos em que vida íntima é tornada assunto público e todas as liberdades – até a liberdade de amar – precisam ser afirmadas para serem salvaguardadas. São tempos em que sobretudo dizer “eu amo mulheres” tem potência e verdade infinitas porque, mais do que necessário, é imprescindível.

Camila Pitanga faz parte de uma safra preciosa de mulheres que publicizam sua homo/bissexualidade e fazem revolução com suas intimidades. Nanda Costa e LanLan, duas mulheres gigantes que nunca caberiam em um armário; Bruna Linsmeyer, a revelação global talentosíssima que afirma seus pêlos, seus feminismos e seus afetos; a superpopular funkeira Ludmilla, que publicizou recentemente seu amor por uma dançarina parceira de trabalho.

É claro que elas não trazem nada novo sob o sol – mulheres sempre se amaram, há sempre uma sapatão que veio antes e outra que virá depois, e é por isso que a festa sapatônica não acaba nunca, que o digam Cássia Eller e Simone -, mas o que confere peso político à afirmação da sexualidade desta “nova safra” é justamente o momento que ela se dá, um momento em que amar é um ato de rebeldia, e amar mulheres é ao mesmo tempo honra e risco.

Por isso, sobretudo e mais do que nunca, não basta a Camila – e Nanda e Bruna e Maria e Roberta e Thalita – amar mulheres: é preciso afirmar esse amor. Nosso tempo exige.

Apenas amando e afirmando o amor talvez alcancemos enfim uma “política do afeto” – para citar Vladmir Safatle ao escrever que “a verdadeira política é fortalecer nossos afetos”. Isso deve significar, entre outras coisas muitas, que deixar o amor brilhar é um ato de resistência.

Eu quero mais é que o amor brilhe e seja assunto público. Quanto mais purpurina, melhor.

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