Campanha começa na Bolívia com Evo candidato ao Senado

Evo Morales. Foto: AFP

Publicado originalmente no site da RFI

POR MÁRCIO RESENDE

A partir desta terça-feira (4), começa a campanha eleitoral na Bolívia depois de terminado o prazo para inscrição de candidatos. A confirmação da candidatura de Evo Morales ao Senado chegou de última hora, mas pode durar pouco. Refugiado na Argentina e com ordem de prisão no território boliviano, Morales é a figura central de uma campanha eleitoral que tem o Movimento ao Socialismo como partido favorito e a oposição dividida na luta pelo segundo turno.

Serão oito candidatos que vão disputar a Presidência durante três meses de campanha até as eleições de 3 de maio. De um lado, está o Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales, que terá como candidato o ex-ministro da Economia, Luis Arce. Segundo as pesquisas, o MAS larga na frente e já teria um lugar garantido no segundo turno.

Do outro lado, os candidatos de oposição a Evo Morales disputam quem terá mais chances de derrotar o MAS em um segundo turno.

“A corrida eleitoral estará baseada em quem vai concentrar o voto dos opositores a Evo Morales. Mesmo que Evo Morales não seja candidato à Presidência depois de 14 anos, continuará sendo uma campanha com o MAS como ator central”, explica à RFI o analista político boliviano, Raúl Peñaranda.

Os candidatos com mais chances são o ex-presidente Carlos Mesa, a atual presidente interina Jeanine Áñez e Luis Fernando Camacho, que liderou o movimento que levou Morales à renúncia após as eleições de outubro passado.

“É possível que o MAS leve o primeiro turno com cerca de 30%, como indicam algumas sondagens. Mas, num segundo turno, todas as forças contrárias a Morales vão votar no candidato opositor”, aposta Peñaranda.

A partir de agora, o Tribunal Superior Eleitoral terá seis dias para analisar se todos os candidatos cumprem com os requisitos da lei. A expectativa é sobre a candidatura de Evo Morales.

Candidatura em risco

O ex-presidente surpreendeu quando, na semana passada, anunciou que poderia ser candidato a deputado ou a senador. Foi inscrito como candidato a senador pela região de Cochabamba, mas a sua candidatura pode ser impugnada.

A lei boliviana impõe que um candidato a legislador tenha residido no país ao longo dos últimos dois anos. Evo Morales está há quase três meses fora do país, primeiro como asilado no México e agora como refugiado na Argentina.

Morales deixou o país no dia 11 de novembro, quando embarcou ao México, depois de renunciar à Presidência após três semanas de protestos e greves que questionavam sua eleição. Depois que a OEA (Organização dos Estados Americanos) constatou fraude nas eleições de 20 de outubro, Morales perdeu o apoio dos sindicatos, da Igreja e das Forças Armadas.

“Evo Morales está obrigado a ser candidato para não perder peso político interno. Por não estar na Bolívia, tem muito menos influência no país por mais que seja chefe de campanha do partido a partir da Argentina”, observa Raúl Peñaranda, indicando que “o fato de o MAS o ter incluído na lista de legisladores demonstra que Morale ainda tem força dentro do partido”.

“Se ele for inabilitado pelo Tribunal Superior Eleitoral, dirá que é uma injustiça e que é perseguido pelo governo. Mas as razões para o inabilitar seriam sensatas: o candidato precisa morar no país e ele pediu asilo, perdendo o direito de morar no país”, pondera Peñaranda.

Inscrição tumultuada

Para ser inscrito, Evo Morales deu procurações a duas pessoas, suas representantes legais: a ex-chefe de Gabinete, Patricia Hermosa, e o ex-vice-ministro, Wilfredo Chávez.

Na sexta-feira, Patricia Hermosa foi presa, acusada de cúmplice nos delitos de sedição, terrorismo e financiamento de terrorismo pelos quais Evo Morales tem uma ordem de prisão na Bolívia.

Quando Hermosa foi presa, levava os documentos de Evo Morales. Hermosa acusou o governo da presidente Jeanine Áñez de ter roubado os documentos para o impedir de concorrer. Morales mandou uma carta à Corte Interamericana de Direitos Humanos enquanto o atual governo boliviano alegava que a advogada presa levava apenas fotocópias e que nenhum documento foi levado. Patricia Hermosa já havia sido presa em dezembro, mas foi solta por falta de provas.

“Não tenho certeza de que tenham prendido Patricia Hermosa para que Evo Morales não fosse inscrito, mas isso não significa que não tenha sido uma prisão inaceitável. Não havia nenhuma acusação, e nem uma ordem de prisão. São coisas que só servem para reforçar a ideia de alguns setores de que não temos uma democracia plena e de se trata de um golpe de Estado”, critica Raúl Peñaranda.

Estratégia para derrotar Evo Morales

Para enfrentar o MAS de Evo Morales, cinco candidatos a presidente da oposição tentaram, no fim de semana, formar uma coligação, mas a tentativa não deu certo. Por enquanto, os opositores a Evo Morales vão divididos ao pleito eleitoral. Haverá uma nova tentativa de união no dia 3 de abril.

A estratégia é ver qual dos opositores tem mais chances de derrotar o partido de Evo Morales. Para isso, as pesquisas terão um peso importante nestas eleições.

“Por enquanto, não vejo nenhuma chance de união entre os opositores. Vejo como muito importante o papel das pesquisas, bem mais do que nas eleições passadas. As pesquisas terão um efeito de concentração do voto útil porque os eleitores vão votar naquele que mais chances tiverem de derrotar Evo Morales, independentemente de gostarem ou não do candidato”, prevê Peñaranda.

O atual cenário boliviano recorda as eleições brasileiras de 2018, quando os eleitores optaram por Jair Bolsonaro para derrotar o candidato do Partido dos Trabalhadores e, assim, evitar a volta indireta de Lula que estava preso.

Na atual Bolívia, seria um voto para derrotar o candidato do MAS para evitar a volta indireta de Evo Morales que estaria preso se estivesse na Bolívia.

“Seria como Bolsonaro no Brasil: um voto mais contra Evo Morales e não tanto a favor de alguém. Um voto naquele com mais chances de derrotar o MAS”, compara Raúl Peñaranda.

Por enquanto, os opositores a Evo Morales só concordaram com dois pontos: que um não ataque o outro para não dispersar ainda mais os votos e formarem um bloco unido no futuro Parlamento.

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