
A associação civil Eu Decido iniciou uma campanha nacional para ampliar o debate sobre a morte assistida no Brasil, um tema ainda envolto em tabus culturais, lacunas jurídicas e resistência social. Com uma abordagem direta e emocional, a iniciativa pretende colocar no centro da discussão o direito à autonomia individual no fim da vida — uma pauta que, segundo especialistas, tende a ganhar relevância diante do envelhecimento da população e dos avanços da medicina.
O ponto de partida da campanha é o lançamento do filme “Cachorrinho”, peça audiovisual que busca sensibilizar o público por meio de uma narrativa simples, mas provocadora. Na história, uma mulher decide interromper o sofrimento de seu cachorro, gravemente doente e sem possibilidade de cura. Anos depois, ela própria enfrenta uma condição semelhante — uma doença incurável e dolorosa — mas, ao contrário do animal, não tem o direito legal de escolher o fim da própria vida.
A analogia proposta pelo filme expõe uma contradição ética que a campanha quer escancarar: por que a sociedade aceita a interrupção do sofrimento de animais, mas nega aos humanos o direito de decidir sobre a própria morte?
Para a presidente da entidade, Luciana Dadalto, a campanha busca justamente romper o silêncio em torno do tema. “Ainda existe um bloqueio muito grande quando falamos sobre morte no Brasil. As pessoas evitam o assunto, o que faz com que decisões fundamentais sejam adiadas ou sequer consideradas”, afirma.
Dados do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) ajudam a dimensionar esse cenário: 73% dos brasileiros evitam falar sobre a morte, e cerca de 10% acreditam que mencionar o tema pode “atraí-la”. Esse contexto de negação, segundo a associação, dificulta o acesso à informação e impede que indivíduos exerçam plenamente sua autonomia.
Um debate que chega tarde demais
De acordo com a Eu Decido, um dos principais problemas é que o debate sobre o fim da vida costuma acontecer apenas em situações-limite, quando o paciente já se encontra em estado terminal ou incapaz de expressar sua vontade. Nesses casos, decisões delicadas acabam sendo transferidas para familiares, que frequentemente desconhecem os desejos da pessoa.
A entidade defende que essa lacuna poderia ser reduzida com mais informação sobre instrumentos já existentes no Brasil, como o testamento vital — documento que permite registrar previamente as preferências sobre tratamentos médicos —, além da recusa terapêutica e dos cuidados paliativos.
Ainda assim, a morte assistida segue proibida no país, o que impede qualquer escolha ativa do paciente para abreviar o próprio sofrimento, mesmo em situações consideradas irreversíveis.
Movimento internacional e pressão por mudanças
Fundada em maio de 2025, a Eu Decido se inspira em legislações de países onde a morte assistida já é regulamentada, como Portugal, Espanha, Holanda e Bélgica. Nesses locais, a prática é permitida sob critérios rigorosos, geralmente envolvendo doenças graves, incuráveis e com sofrimento intenso, além da manifestação clara e reiterada da vontade do paciente.
A associação argumenta que o Brasil está atrasado nesse debate e que a ausência de regulamentação mantém pacientes e famílias em situações de sofrimento prolongado. Para o grupo, a discussão não deve ser reduzida a uma questão médica, mas encarada como um tema de direitos humanos.
“Morrer com dignidade é um direito fundamental. A decisão sobre o que constitui uma vida digna deve ser individual, e não imposta pelo Estado ou por terceiros”, diz Dadalto.
Rede de apoio e articulação pública
A Eu Decido reúne nomes de diferentes áreas — medicina, direito, comunicação e cultura — numa tentativa de ampliar o alcance do debate. Entre os apoiadores estão Drauzio Varella, Andreas Kisser, Marina Lima, Christian Dunker e Juca Kfouri.
A diversidade de perfis reflete a estratégia da entidade: tirar o tema do campo estritamente técnico e levá-lo ao debate público mais amplo, envolvendo aspectos culturais, emocionais e éticos.
Comunicação como ferramenta de impacto
O filme “Cachorrinho” foi desenvolvido pela produtora Feito, com criação e roteiro de Vinicius Malinoski e direção de cena de Felipe Valério. A escolha por uma narrativa afetiva, centrada na relação entre humanos e animais, busca facilitar a identificação do público e estimular uma reflexão menos abstrata sobre o tema.
Ao apostar na comunicação como ferramenta central, a campanha tenta romper a barreira inicial do desconforto. A expectativa da associação é que, ao gerar incômodo e empatia, o filme incentive conversas que normalmente não aconteceriam.
Entre o tabu e a urgência
Embora ainda enfrente resistência, o debate sobre morte assistida tende a ganhar espaço no Brasil nos próximos anos, impulsionado por mudanças demográficas, avanços tecnológicos e maior exposição do tema em campanhas como a da Eu Decido.
Para a entidade, o primeiro passo é simples, mas desafiador: fazer com que as pessoas falem sobre a morte — não como um fim abstrato e distante, mas como uma parte inevitável da vida que também envolve escolhas, direitos e dignidade.
Nesse sentido, a campanha não propõe respostas definitivas, mas uma pergunta incômoda: até que ponto o indivíduo deve ter controle sobre o próprio destino?