Campanha por pré-candidaturas negras ganha força em Salvador, puxada pelo PT. Por Igor Carvalho

Partido dos Trabalhadores / Foto: Agência PT

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR IGOR CARVALHO

Em 2019, Salvador, município com a maior população negra fora da África, viu ganhar força o movimento “Eu quero ela”, que reivindica a escolha de uma candidata negra para a disputa da Prefeitura nas eleições deste ano.

A campanha foi impulsionada dentro do PT após surgirem três postulantes negros ao cargo: a socióloga Vilma Reis, o vereador soteropolitano Moisés Rocha e, mais recentemente, Fábya Reis, secretária de Igualdade Racial do governo da Bahia.

Porém, uma candidatura negra na capital baiana terá que superar as intenções de dois homens brancos que também lançaram pré-candidaturas: o deputado federal Robinson Almeida (PT-BA) e o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, recém-saído da Secretaria de Cultura de Belo Horizonte, onde trabalhou para o prefeito Alexandre Kalil (PSD).

Nos bastidores do partido, Almeida é considerado um nome forte para a vaga, por ser ligado a um dos principais caciques da legenda na Bahia, o senador Jaques Wagner, que o nomeou secretário da Comunicação do estado quando era governador, entre 2011 e 2014.

Um candidatura negra

Diante do impasse, baianos influentes, de dentro e fora do partido, saíram em defesa de uma candidatura negra na capital baiana. Em entrevista ao Brasil de Fato, o petista Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras nos governos Lula, declarou apoio ao movimento.

“Eu continuo defendendo que o PT tem que ter um candidato negro, eu acho muito melhor ter um candidato negro do que um candidato importado ou um candidato branco do PT. Então, essa é minha posição nesse momento”, afirmou.

Ainda em 2019, João Jorge, presidente do Olodum, já havia se manifestado. “A prefeitura de Salvador precisa ter um negro ou uma negra, prefeito ou prefeita.”

O pré-candidato Juca Ferreira discorda. “Eu não vejo problema [no movimento “Eu quero ela”]. Assim como tem uma pressão por uma mulher negra, tem outras pressões. É normal que na disputa de pré-candidatos cada um tenha sua característica, suas prioridades, sua narrativas e seus discursos. Eu não sou representante dos brancos, sou uma pessoa com 52 anos de política, passei dos 20 aos 30 anos preso, clandestino e exilado. Então, eu represento um projeto, não sou o candidato de um tema, represento uma sociedade de iguais.”

Para o ex-ministro, a campanha “Eu quero ela” é importante, mas não deve ser prioritária. “Já tivemos um prefeito negro, Edvaldo Brito. Negro mesmo. É parte de uma narrativa [dizer que não houve prefeito negro]. A Câmara dos Vereadores tem, talvez, uma maioria negra, mas de direita. Não considero a cor da pele o aspecto principal.”

Um dos pré-candidatos, Moisés Cunha rebate o argumento de Juca Ferreira sobre Edvaldo Brito, que governou Salvador por oito meses, entre agosto de 1978 e abril de 1979. “Essa reparação tão falada já passou da hora. É anormal, é fora de qualquer eixo e equilíbrio, uma cidade que tem mais de 80% de população negra, nunca ter tido um homem ou mulher negra como prefeito ou prefeita, isso não existe em nenhum lugar do mundo. Nós só tivemos um prefeito negro nessa cidade, que foi Edvaldo Brito, um prefeito tampão, nomeado pela ditadura, que depois tentou se eleger e perdeu.”

Fabya Reis e Vilma Reis defendem que Juca Ferreira e Robinson Almeida abdiquem da disputa interna no partido. “Mobilizar e sensibilizar os companheiros para que declinem de suas candidaturas e apoiem as candidaturas negras colocadas no PT é um esforço que tem que ser também de nossas direções, da nossa Executiva e da nossa militância. Vamos entrar nesse movimento de sensibilizar os companheiros para apoiarem as candidaturas negras”, argumenta a secretária de Igualdade Racial do governo baiano.

“Nós temos profundo respeito a todas as propostas que estão aí. Temos feito diálogos para mostrar que é importante uma candidatura negra, mas sabemos que é difícil, por isso acreditamos nas prévias do partido. Por isso estamos apostando no diálogo (com Juca Ferreira e Robinson Almeida)”, argumenta Vilma Reis, que pressiona o partido.

“Nós colocamos um projeto que tem a ver com uma questão civilizatória. Somos 85% da cidade, nosso partido não pode estar em conflito com uma proporção dessas.”

Para Moisés Rocha, o obstáculo está na direção. “Não adianta argumentarmos com Juca, que eu respeito muito, e com Robinson, se os caciques, a executiva do partido no estado e o senador Jacques Wagner não estiverem imbuídos desse mesmo objetivo.”

Prévias

O impasse deve ser resolvido ainda no mês de janeiro. O PT acelerou as prévias na capital baiana depois que o prefeito Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM) anunciou que seu vice, Bruno Reis (DEM), será o candidato indicado por ele e “com apoio de 12 partidos” para disputar o pleito de 2020.

Presidente do PT na capital baiana, Ademário Costa confirmou que a decisão será conhecida ainda em janeiro, após votação dos 27 mil filiados do partido no município.

“Nós vamos verificar agora qual é a opinião da base do PT sobre esse recado que o movimento está dando. De fato, neste momento, o principal debate em Salvador sobre as eleições de 2020 na esquerda é a questão negra.”

Sobre as prévias, Gabrielli afirma esperar que o partido seja influenciado pelo movimento negro. “O protagonismo de um candidato ou uma candidata negra é muito importante. A luta antirracista não é só dos negros, é também dos brancos. Mas nesse momento, a questão é o protagonismo, quem é o protagonista? O protagonista tem que ser um candidato ou candidata negra”.

O Brasil de Fato tentou contato com o senador Jaques Wagner e com sua assessoria, mas não obteve sucesso. O PT da Bahia não comentou.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!