Campeão de jiu-jítsu bolsonarista é acusado de acobertar casos de abuso sexual em suas academias nos EUA

Roberto Cyborg (à frente): fã do mito encrencado nos EUA

Deu no New York Times a história de Roberto Abreu, o “Cyborg”, campeão mundial de jíu-jitsu acusado de acobertar casos de abuso sexual em sua rede de academias nos Estados Unidos.

Cyborg, estrela do esporte, construiu um império. “Em março de 2018, um professor brasileiro de jiu-jítsu, de 31 anos, foi preso em uma academia em Naples, Flórida. Ele foi acusado três vezes de agressão sexual contra uma garota de 16 anos que era sua aluna e uma amiga íntima da família. Hoje, o caso não resolvido e outras denúncias de má conduta sexual estão abalando o esporte e perseguindo uma de suas figuras mais poderosas, Roberto Abreu”, diz o Times.

“Ele era o professor de longa data e amigo íntimo do homem acusado de agredir a jovem de 16 anos. Muitos na comunidade do jiu-jítsu afirmam que Abreu poderia ter usado sua influência para expor e denunciar a má conduta sexual do amigo, mas em vez disso a minimizou e não ofereceu apoio adequado à vítima.”

O que o Times não conta é que Abreu é bolsonarista convicto, adepto da crença de que “bandido bom é bandido morto”.

Em 2018, saiu do armário no Instagram num post em que posava com uma camiseta “Make Brazil Great Again”.

“Agora é a hora dos bons se levantarem. Afinal, como diz o mito, o soldado que vai pra guerra e tem medo de morrer é um covarde. Bora pra cima!! Nossa bandeira é e sempre será verde e amarela. Conte comigo Capitão!”, escreveu.

Reproduzo alguns trechos da reportagem:

No caso de Naples, Abreu, de 40 anos, lutador conceituado conhecido como Cyborg e dono de uma organização chamada Fight Sports, foi duramente criticado por ter ignorado a vítima e apoiado o acusado, Marcel Gonçalves, e até recebê-lo em uma academia da Fight Sports depois que ele foi detido. Gonçalves e Abreu são da mesma região do Brasil, e Abreu é padrinho do filho de Gonçalves.

Em agosto, uma proeminente figura do jiu-jítsu publicou alegações de má conduta sexual envolvendo meia dúzia de treinadores e competidores ligados à Fight Sports. Em entrevistas ao “The New York Times”, algumas vítimas e testemunhas descreveram casos em que, segundo elas, Abreu refutou a denúncia de tentativa de agressão sexual e ignorou ou tentou pressionar vítimas ou aqueles que expressaram preocupação. Abreu não enfrenta nenhuma acusação de má conduta sexual e disse ao The Times que nunca desdenhou das preocupações das vítimas e nem tentou intimidar ninguém.

Mas, em um comunicado no Instagram em 13 de agosto, Abreu reconheceu alguns erros. Ele escreveu: “Para as vítimas e suas famílias, lamento pelo meu tratamento inadequado, pela falta de preparação e pela falta de liderança adequada para lidar com a experiência horrível pela qual passaram”. Abreu escreveu que, ao tentar proteger seu afilhado, ele “falhou drasticamente” em se dirigir à adolescente vítima de Gonçalves “de forma adequada, pública e rápida”. (…)

Respondendo a perguntas do The Times, Abreu disse que sua organização estava instituindo políticas para prevenir o comportamento sexual impróprio no futuro, incluindo treinamento sobre assédio sexual para todos os treinadores e funcionários. Alegações de agressão sexual por lutadores e instrutores afiliados à Fight Sports ressaltam o fracasso de muitas organizações globais em proteger as mulheres jovens que praticam esportes.

Só neste ano, escândalos envolvendo abuso sexual ou psicológico surgiram no basquete, pólo aquático, nado sincronizado, esgrima, futebol e até mesmo corridas de barcos-dragão. As denúncias do jiu-jitsu seguem um padrão no qual altos funcionários e técnicos, operando com pouca supervisão, são acusados de tentar proteger os interesses do esporte em vez das vítimas. (…)

A maneira como Abreu lidou com a polêmica dos abusos sexuais foi amplamente discutida nas redes sociais e em publicações online como o “Jiu-Jitsu Times”, mas só agora está recebendo atenção na grande mídia. Recentemente, Abreu contatou a adolescente da Flórida no caso Gonçalves e pediu desculpas. Para ela, a mensagem de texto — o primeiro contato que Abreu fazia em três anos —  era insuficiente, já era tarde demais.

— Acho que é alguém que se esconde atrás de uma faixa-preta. Qualquer pessoa que tenha moral, qualquer pessoa que tenha uma consciência decente, deve saber o que é certo e errado — disse a adolescente sobre Abreu, expressando o sentimento de traição por ele continuar a apoiar Gonçalves. (…)

A Fight Sports, com sede em Miami, tem 32 academias de treinamento nos Estados Unidos, América do Sul, Europa e África. Abreu disse que Gonçalves veio para sua escola no Brasil aos 14 anos para tentar superar o trauma da morte da mãe por suicídio. Ele foi um dos primeiros dos mais de 150 competidores que Abreu já levou à faixa-preta.

Abreu parecia indignado depois que Gonçalves foi preso por acusações criminais de segundo grau na Flórida. Ele escreveu no Instagram que “a agressão sexual nunca pode ser tolerada” e que “meu coração se parte pela vítima e sua família”. Sem mencionar o nome de Gonçalves, Abreu disse que ele “seria responsabilizado”.

A sinceridade de Abreu foi questionada em uma postagem no Instagram em agosto. Mo Jassim, que organiza um dos principais torneios do esporte, apresentou declarações e evidências, em vídeo e fotos de outros lutadores, de que Gonçalves foi autorizado a treinar e socializar na academia emblemática de Abreu em Miami e em uma academia associada na Flórida após sua prisão. Abreu disse que permitiu que Gonçalves entrasse na academia de Miami apenas para pegar sua mulher e filho.

Jassim, que se disse motivado pela preocupação com as vítimas, também publicou um depoimento de Hind Chaouat, 42 anos, uma artista visual marroquina que disse ter sido atacada enquanto participava de um treinamento da Fight Sports em Bonito, Mato Grosso do Sul, no Brasil, em 9 de setembro de 2016 .

Em entrevista ao “New York Times”, Chaouat disse que estava dormindo no Marruá Hotel quando acordou e encontrou outro lutador em cima dela.

Segundo o boletim de ocorrência, lido para o “The Times”, Paulo Félix Figueiró, então com 37 anos, foi preso e acusado de tentativa de estupro. Imagens de segurança do hotel mostraram Figueiró entrando no quarto de Chaouat, mas ele negou tê-la agredido. Ao ser contatado pelo “The Times”, Figueiró disse não saber nada sobre a Fight Sports. De acordo com Chaouat, Abreu disse a ela que, como seu agressor não a penetrou, “não foi grande coisa”. (…)

Nas palavras de Abreu, os valores do jiu-jítsu, ensinados por ele, transformam vidas “ajudando meus alunos a desenvolver autoconfiança por meio da disciplina, respeito, trabalho em equipe e integridade”. Mas também é um esporte cujos instrutores faixa-preta são regularmente tratados como mestre e professor e, de acordo com Jassim, são vistos “quase como semideuses”. O treinamento corpo a corpo do jiu-jítsu também ultrapassa os limites físicos entre o instrutor e o aluno.

— Você leva essas meninas, de 15, 16 anos, para um treinador que elas admiram, e então elas têm a pressão de ter sucesso a todo custo. Acho que tudo isso junto é uma receita para o desastre — disse ele.

Mandy Schneider tinha 16 anos em outubro de 2020 quando, segundo ela, foi induzida a beber vinho por seu instrutor da Fight Sports e estuprada em um quarto de hotel na noite anterior a uma competição em Houston. O instrutor Rodrigo da Costa Oliveira treinou na academia de Abreu em Miami e recebeu a faixa-preta do próprio. Schneider contou sua história pela primeira vez ao “Jiu-Jitsu Times”. (…)

Quando Jassim escreveu sobre o caso Gonçalves em agosto, Abreu disse em nota que estava rescindindo a faixa-preta de Gonçalves e cortando todos os laços com ele. Ele disse ao “Jiu-Jitsu Times” que também estava revogando os faixas-pretas concedidas a Oliveira, acusado de agredir Mandy Schneider, e a Tony Harris Jr., ex-instrutor afiliado à Fight Sports em Illinois, e que iria barrá-los de todas as academias da Fight Sports.

De acordo com registros do tribunal e relatos da mídia, Harris foi condenado por agressão sexual em 2014 por uma de suas alunas, que tinha 15 anos na época.

Abreu também disse que estava criando uma linha direta de conduta sexual imprópria e implementando uma política de tolerância zero nas academias da Fight Sports. Isso foi visto por alguns, porém, como uma resposta desastrada. As vítimas devem ligar para o 911, não para uma linha direta da Fight Sports, se forem agredidas, disse Nathaniel Quiles, 38, que treinou anteriormente na principal academia de Abreu em Miami. (…)

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