Campos Neto sabia, mas escolheu ignorar irregularidades do Banco Master; entenda

Atualizado em 28 de janeiro de 2026 às 6:27
Roberto Campos Neto, bolsonarista que presidiu o Banco Central até 2025. Foto: reprodução

O bolsonarista Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, tinha conhecimento dos graves problemas de liquidez enfrentados pelo Banco Master durante sua gestão à frente da autoridade monetária, mas evitou adotar medidas mais duras contra a instituição. À época, a avaliação interna era de que o banco poderia encontrar uma saída de mercado que reduzisse os impactos sistêmicos e o custo ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Segundo uma reportagem do Estadão, a expectativa era de que o Master conseguisse separar seus ativos em um modelo de “good bank” e “bad bank”, permitindo a revenda da parte considerada saudável ao mercado e limitando os prejuízos.

O crescimento acelerado do banco controlado por Daniel Vorcaro ocorreu entre 2019 e 2024, período em que Campos Neto chegou a impor um ultimato informal para que fosse encontrada uma “solução definitiva” até março de 2025. A liquidação, no entanto, acabou sendo decretada apenas em novembro do ano passado, já sob a presidência de Gabriel Galípolo.

A interlocutores, Campos Neto tem afirmado que as decisões do Banco Central são técnicas e passam por instâncias colegiadas. Segundo ele, durante sua gestão não houve proposta formal levada à diretoria colegiada para intervenção ou liquidação do Master. Ainda assim, o Estadão apurou que, ao menos duas vezes em 2024, Campos Neto teria atuado para evitar medidas mais extremas contra o banco, em março e novembro.

Esses períodos coincidem com o endurecimento da fiscalização, conforme relato do Banco Central ao Tribunal de Contas da União (TCU). Segundo o documento, no primeiro semestre de 2024, o BC passou a realizar “acompanhamento contínuo da gestão de risco de liquidez” do Master, diante de um cronograma intenso de pagamentos e de um “baixo estoque de ativos líquidos”.

Entrada do Banco Master. Foto: reprodução

“Nessas circunstâncias, o Banco Central determinou a adoção de providências com vistas a assegurar a liquidez em níveis suficientes e adequados, assim como a apresentação de plano de contingência de liquidez atualizado”, afirma o BC.

No segundo semestre de 2024, a situação se agravou com o fracasso do plano de captação de R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo, dos quais apenas R$ 2 bilhões foram obtidos.

“Ainda assim, a instituição financeira manteve a contratação de operações estruturadas de longo prazo e reduzida liquidez, sem gerar fluxos financeiros relevantes. O gerenciamento inadequado do risco de crédito contribuiu para o agravamento da crise de liquidez do conglomerado”, diz o documento.

O BC também relata a identificação de irregularidades como insuficiência de capital, informações incorretas prestadas à autarquia, inexistência de ativos líquidos no fundo de liquidez e falhas no gerenciamento do risco de crédito. A partir de novembro de 2024, o Master passou a não conseguir rolar dívidas nas plataformas de investimento e deixou de recolher integralmente os depósitos compulsórios.

“Diante das dificuldades de captação de recursos de investidores institucionais e mesmo após iniciar cessões de carteiras em conformidade com o plano de contingência implementado, a partir de novembro de 2024 o Banco Master S.A. não conseguiu mais rolar a totalidade de obrigações vencidas captadas via plataformas de investimento”, informou o BC, que alertou sobre a possibilidade de aplicação de medidas “prudenciais preventivas”.

“Seus dirigentes foram cientificados pelo Banco Central de que essa situação poderia dar azo à aplicação de medidas prudenciais preventivas previstas na Resolução CMN nº 4.019, de 29 de setembro de 2011”.

A autorização para a compra do então banco Máxima por Daniel Vorcaro foi concedida em outubro de 2019. Entre o fim de 2019 e 2024, o Master saltou de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões em ativos. “Em menos de quatro anos, o Master se tornou a 25ª maior instituição financeira do Brasil, em junho de 2024, quando era a 77ª em 2021”, apontou a Moody’s.

A Polícia Federal investiga se esse crescimento ocorreu de forma desordenada e criminosa, no âmbito da Operação Compliance Zero, após a venda de carteiras falsas ao BRB, considerada um “crime novo” ocorrido em janeiro de 2025.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.