
As Forças Armadas do Canadá elaboraram um modelo teórico de uma eventual invasão militar dos Estados Unidos e das possíveis formas de resposta canadense. Segundo dois altos funcionários do governo contaram ao jornal Globe and Mail, de Toronto, o exercício considera estratégias semelhantes às usadas contra tropas soviéticas no Afeganistão, entre 1979 e 1989, e mais tarde contra forças lideradas pelos próprios Estados Unidos no mesmo país.
De acordo com essas fontes, trata-se da primeira vez, em cerca de um século, que os militares canadenses desenvolvem um cenário específico de ataque vindo do país vizinho. O Canadá é membro fundador da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e parceiro direto dos EUA na defesa aeroespacial da América do Norte.
Os oficiais destacam que o trabalho não constitui um plano operacional, mas um modelo conceitual e teórico, usado para análise e avaliação de riscos, sem instruções práticas de execução militar.
O Globe and Mail optou por não identificar os funcionários, que não tinham autorização para comentar publicamente esse tipo de discussão interna. Tanto eles quanto especialistas ouvidos afirmam que é improvável que o governo Trump ordene uma invasão ao Canadá.
Nesta semana, o jornal informou que o Canadá avalia enviar um pequeno contingente militar à Groenlândia, para participar de exercícios conduzidos por oito países europeus em demonstração de apoio à Dinamarca, da qual a ilha é território autônomo. A iniciativa ocorre em meio às reiteradas declarações do presidente Donald Trump defendendo que os Estados Unidos assumam o controle da Groenlândia, acompanhadas de ameaças tarifárias contra países europeus contrários à ideia. As tensões aumentaram após ações recentes dos EUA na Venezuela, incluindo a captura do presidente Nicolás Maduro.
Trump também voltou a sugerir, em diversas ocasiões, que o Canadá poderia se tornar o 51º estado americano. Segundo a rede NBC, ele tem reclamado a assessores sobre o que considera vulnerabilidades canadenses no Ártico frente a adversários dos EUA. Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump, afirmou que o Canadá estaria se tornando “hostil” aos interesses americanos.
Segundo os dois altos funcionários, os planejadores militares trabalham com a hipótese de uma invasão a partir do sul, na qual forças americanas superariam posições estratégicas canadenses em terra e no mar em menos de uma semana, possivelmente em apenas dois dias. O primeiro-ministro Mark Carney declarou preocupação com a escalada de tensões em torno da Groenlândia e com as ameaças tarifárias feitas por Washington.

Os oficiais reconhecem que o Canadá não dispõe de efetivo nem de equipamentos avançados suficientes para resistir a um ataque convencional dos Estados Unidos. Por isso, o modelo considera o uso de guerra não convencional, com pequenos grupos militares irregulares ou civis armados recorrendo a emboscadas, sabotagem, drones e ataques rápidos.
Um dos funcionários afirmou que o cenário inclui táticas utilizadas pelos mujahedin afegãos contra tropas soviéticas e, posteriormente, pelo Talibã contra forças americanas e aliadas. Entre 2001 e 2014, 158 soldados canadenses morreram no Afeganistão, muitos em ataques com artefatos explosivos improvisados. O objetivo dessas estratégias, segundo o oficial, seria causar elevadas baixas às forças ocupantes.
O exercício oferece o retrato mais detalhado até agora do nível de avaliação de ameaças em debate no Canadá diante do atual governo americano. Ainda assim, um dos funcionários ressaltou que as relações entre os militares dos dois países permanecem boas e que há cooperação em projetos de defesa continental, como um novo sistema antimísseis voltado a ameaças russas ou chinesas.
Além desse cenário, os militares canadenses também modelaram ataques de mísseis russos ou chineses contra cidades e infraestruturas críticas do país. No caso específico de uma ofensiva americana, os planejadores consideram que haveria sinais prévios claros, como o rompimento da cooperação no Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte (NORAD) e ordens explícitas para uma tomada do território canadense.
O alistamento obrigatório foi descartado por enquanto, mas o grau de sacrifício exigido da população segue em discussão. A chefe do Estado-Maior da Defesa, general Jennie Carignan, já anunciou a intenção de formar uma reserva de mais de 400 mil voluntários, que poderiam ser armados ou atuar em ações de perturbação caso os EUA se tornassem uma força ocupante.
Um alto funcionário do Ministério da Defesa afirmou que o Canadá teria, no máximo, três meses para se preparar para uma invasão terrestre e marítima. O rompimento formal da defesa conjunta poderia levar países como França e Reino Unido, ambos com armas nucleares, a oferecer apoio direto ao Canadá.
O general reformado David Fraser, que comandou tropas canadenses no Afeganistão ao lado dos EUA, disse ser difícil imaginar que planejadores tenham precisado considerar um cenário desse tipo. Ainda assim, afirmou que o Canadá poderia empregar drones e armas antitanque semelhantes às usadas pela Ucrânia contra a Rússia desde 2022. Para ele, o país também contaria com apoio de nações europeias, além de Japão e Coreia do Sul.
Fraser defendeu o reforço imediato da presença militar no Norte do Canadá e afirmou que, diante de uma ameaça real, tropas seriam posicionadas ao longo da fronteira, mesmo sem possibilidade concreta de vitória militar. Em sua avaliação, táticas de insurgência seriam a resposta mais eficaz.
