Exclusivo: “O candidato da Meta é Flávio Bolsonaro”, denuncia ex-executiva do WhatsApp

Atualizado em 25 de outubro de 2026 às 11:07
Manifestantes diante da sede da Meta em São Paulo. Foto: Miguel Worcman

Por Miguel Worcman

Diante da intervenção da Meta — dona do Instagram, Facebook e WhatsApp — a favor do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições brasileiras, o DCM conversou com Daniela da Silva Scapin, ex-executiva do Whatsapp no Brasil, para entender os mecanismos usados pelas big techs para manipular o processo eleitoral do país.

Na reta final da disputa, a empresa foi cobrada por censurar conteúdos ligados a Lula e por suspeitas de favorecimento a Flávio. Relatores da ONU pediram explicações sobre suspensões de contas, redução de alcance e diferenças nas buscas e recomendações das plataformas, após receberem relatos de que as medidas atingiam desproporcionalmente um dos lados da eleição.

“Eles não têm nenhuma neutralidade em relação ao nosso processo político. Não tenho dúvidas de que o candidato das big techs é Flávio Bolsonaro”, afirma Daniela, que hoje é diretora da CTRL Z, uma organização social brasileira que enfrenta o modelo de operação das big techs.

Na segunda-feira (19), o grupo liderou uma manifestação em frente ao escritório da Meta, na Avenida Faria Lima, em São Paulo. O ato reuniu centenas de pessoas que cobraram regulação das plataformas e soberania digital sob o lema “Meta, não se meta”.

Para ela, a intervenção da empresa é a mais evidente da história das nossas eleições, justamente pela falta de transparência sobre o uso de seus dados. “Ficou muito visível para a sociedade o quanto essas empresas têm poder, o quanto abusam desse poder e são pouco transparentes em relação a ele”, aponta.

Daniela da Silva Scapin, ex-chefe de políticas públicas do WhatsApp no Brasil.
Foto: Lorrana Penna

Funcionários da própria empresa denunciaram favorecimento à família Bolsonaro. Entre os casos recentes está a restrição ao teaser de “Flavinho de Papai”, episódio da série “Revelando” apresentado por MC Cabelinho que questiona a trajetória do candidato do PL. A Meta se pronunciou, alegando restrições eleitorais a conteúdos com inteligência artificial, mas os produtores negaram o uso da tecnologia. A publicação voltou ao ar horas depois.

No WhatsApp, o canal “Exército do Lula” sofreu suspensões determinadas pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, em ações movidas pela campanha de Flávio. Kassio e André Mendonça também discutiram uma proposta para bloquear grandes canais políticos nas 48 horas anteriores à votação, posteriormente descartada.

A saída do WhatsApp e o alinhamento da Meta a Trump

Daniela deixou a chefia de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil em 2025, após o anúncio de mudanças nas políticas da Meta, entre elas o encerramento do programa de checagem de fatos nos Estados Unidos e alterações nas regras de moderação de conteúdo.

“Ele [Mark Zuckerberg] ia se alinhar ao governo Trump para garantir que países que vinham tentando regular as suas plataformas não conseguissem fazer isso. Eu entendi que era o lado do jogo que eu não queria jogar”, comenta Scapin.

Mark Zuckerberg, CEO da Meta, sorridente ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, em jantar na Casa Branca. Foto: Saul Loeb/AFP

Desde então, ela atua com jornalistas e especialistas em direitos digitais para denunciar os danos provocados pelas plataformas no Brasil e em outros países do Sul Global. O objetivo, afirma, é construir “um ecossistema de informação muito mais saudável do que temos hoje”.

À frente da CTRL Z, Daniela acompanha denúncias de usuários que perderam acesso a contas ou tiveram publicações restringidas. A organização já reuniu mais de 1.200 relatos de bloqueios, remoções de conteúdo e outras limitações consideradas arbitrárias.

Ela defende que a resposta da Justiça Eleitoral inclua medidas de reparação. “O TSE precisa pressionar a Meta para reparar a sociedade pelos problemas que ela causou”, ressalta.

“Não foi uma falha. Foi uma decisão”

Quando trabalhava no WhatsApp, ela acompanhou o lançamento da Meta AI, em 2024. Segundo relata, a ferramenta passa por sucessivas etapas de testes, que envolvem equipes dedicadas a identificar riscos, os chamados red teams, além de moderadores e sistemas interligados. As escolhas feitas nesse processo, ressalta, dependem de decisões humanas.

Na semana passada, a Meta AI recusou pedidos para criar imagens de campanha com o nome do presidente Lula (PT) e o número 13, mas gerou peças semelhantes com Flávio e o número 22. Após a repercussão, a empresa alegou tratar-se de uma “falha técnica”.

Registros mostram a diferença na geração de imagens entre os candidatos à Presidência. Fotos: Reprodução/Meta IA

Para Daniela, essa explicação não para em pé. “Não foi uma falha. Foi uma decisão. Uma decisão muito mais política do que técnica. É claro que a gente quer saber se há intencionalidade, mas acho que é assim, culposo ou doloso, não faz diferença. O dano está aí”, diz ela. “É preciso tirar o véu que a Meta está tentando colocar de que foi uma falha técnica”.

Nesta semana, o Comitê de Supervisão da Meta, órgão independente financiado pela empresa, criticou sua atuação nas eleições brasileiras. O colegiado afirmou “estar preocupado com as falhas recorrentes na aplicação das normas eleitorais da Meta” e mencionou as restrições técnicas impostas à conta de Lula.

As críticas também recuperam episódios envolvendo a atuação das plataformas nas eleições do Curdistão iraquiano, nos protestos no Irã e na disputa brasileira de 2022.

Da Cambridge Analytica à inteligência artificial

Em 2016, a discussão sobre o uso político dos dados das plataformas ganhou repercussão internacional com o caso Cambridge Analytica. A consultoria, que trabalhou na campanha de Donald Trump naquele ano, utilizou dados de milhões de usuários do Facebook obtidos sem consentimento adequado para direcionar propaganda política.

As revelações levaram a investigações e ao depoimento de Zuckerberg no Congresso dos Estados Unidos, em abril de 2018. Daniela observa que, embora os dois episódios envolvam o poder das plataformas sobre processos eleitorais, os instrumentos disponíveis mudaram.

“Naquele momento a gente estava falando de Facebook e de microsegmentação. Então era mais sobre a utilização de dados que não foram autorizados pra uso político, sendo vendidos pelo Facebook ali e usados para fazer microssegmentação de campanha”.

Na avaliação da ex-executiva, o crescimento do Instagram e a incorporação da inteligência artificial ampliaram os recursos usados para coletar informações e interferir na circulação de conteúdos políticos: “Existe agora a IA e uma infraestrutura tecnológica muito maior para fazer manipulação política, para fazer coleta de dados. Estamos vendo isso acontecer nas plataformas da Meta”.

“Meta, não se meta”, pedem manifestantes na Faria Lima. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Como enfrentar o poder das plataformas

Daniela defende que o campo progressista amplie sua presença nas redes, apesar das condições impostas pelas big techs. “Acho que a gente não pode abandonar nossas posições nesse espaço. A gente tá jogando o jogo num terreno totalmente desnivelado e o desnível está contra nós. Então a gente precisa mesmo de muito volume.”

Em live com o deputado federal Janones (Rede) nesta quinta-feira (22), Lula afirmou que vai “derrotar o império digital” das big techs. Para Scapin, que aponta um favorecimento sistemático à extrema direita pelas plataformas, ampliar essa participação é necessário para que “as redes possam responder à nossa necessidade de debater com as pessoas”.

A disputa também exige construir “alternativas”, segundo a ex-executiva. Ela defende o uso de “redes federadas”, baseadas na comunicação entre servidores independentes, como forma de reduzir a dependência das grandes empresas de tecnologia.

A pressão nas ruas integra essa estratégia. “O Instagram não é o aplicativo que você vê no seu celular, é um prédio na Faria Lima com pessoas dentro que tomam decisões, com interesses econômicos. É preciso dar materialidade para o que estamos enfrentando”, afirma Daniela.

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