
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, está tentando faturar com a mega-operação contra o crime organizado, deflagrada na semana passada. Mas ele tem o rabo preso.
As fintechs estiveram no centro da Operação Tai-Pan, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2024, que abalou a Faria Lima ao expor um suposto esquema de lavagem de dinheiro bilionário ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre os presos esteve o capitão da Polícia Militar Diogo Costa Cangerana, apontado como responsável pela abertura de contas usadas pelo crime organizado.
Ele foi solto em dezembro e reintegrado ao serviço ativo da PM.
De acordo com o Estadão, Cangerana havia integrado 25 viagens oficiais do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) nos dois anos anteriores. O militar acompanhou deslocamentos estratégicos, como reuniões em Brasília com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) — Luís Roberto Barroso e Luiz Fux —, com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Função na segurança de Tarcísio
Cangerana atuara na Casa Militar do Palácio dos Bandeirantes até setembro de 2024, quando fora transferido para o 13º Batalhão da PM, responsável pelo patrulhamento da Cracolândia. Oficialmente, seu cargo era de Chefe de Equipe da Divisão de Segurança de Dignitários do Departamento de Segurança Institucional.
Apesar da proximidade em agendas oficiais e de campanha — em imagens divulgadas pelo próprio governador no Instagram ele aparecia em eventos ao lado de Tarcísio — a assessoria do governo paulista afirmou, na época, que o capitão não exercia funções de assessoria direta, mas apenas atividades operacionais de rotina, como outros policiais destacados em escala.
O governador classificou a prisão como “um ato isolado” e prometeu punição. “Toda instituição tem suas maçãs podres”, declarou Tarcísio, negando que Cangerana fosse seu chefe de segurança. “Ele estava na Casa Militar havia 14 anos, serviu a vários governadores, e foi retirado em setembro de 2024. Se soubéssemos de algo, teria saído muito antes.”
Presença em agendas públicas
O policial acompanhou o governador em viagens nacionais e internacionais. Esteve em Portugal, onde Tarcísio apresentou ações da Sabesp a investidores, e em Balneário Camboriú, durante a CPAC Brasil, evento em que o governador encontrou o presidente da Argentina, Javier Milei, e o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Cangerana também esteve com Tarcísio em compromissos no interior paulista e em Belo Horizonte, em encontros com governadores do Sul e Sudeste. Em quatro ocasiões, integrou ainda as comitivas do vice-governador Felício Ramuth (PSD), quando ele assumiu interinamente o comando do Estado.
Segundo o levantamento do jornal, em julho de 2023 Cangerana fora visto no Ministério da Fazenda em Brasília, onde, no dia anterior a um encontro entre Tarcísio e Fernando Haddad, teria ensaiado o trajeto que o governador faria e conversado com seguranças do prédio — procedimento de praxe. No dia da reunião, retornou com Tarcísio, mas permaneceu do lado de fora da sala.
A Polícia Federal afirmou que Cangerana seria um dos articuladores do chamado “sistema financeiro do crime”, cuidando da abertura de contas em fintechs usadas para movimentar recursos de facções. Segundo as investigações, três fintechs envolvidas no esquema teriam feito circular R$ 6 bilhões em cinco anos, com ramificações em diversas organizações criminosas.
A Corregedoria da Polícia Militar acompanhava as apurações. O Palácio dos Bandeirantes informou, na ocasião, que Cangerana deixara a Casa Militar em setembro e que o governo aguardava o desenrolar das investigações.