Capitão da Polícia Rodoviária defende agressão a indígenas: “Deixar o lombo mais mole que a barriga”

“Tinha que descer PM, PF, PRF, e EB com os grupos de CDC e deixar o lombo mais mole que a barriga”, escreveu o capitão da PRE no Paraná – Divulgação PRE/PR

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR ISADORA STENTZLER

O policial militar José Batista dos Santos, capitão da 6ª Companhia da Polícia Rodoviária Estadual (PRE) do Estado do Paraná, defendeu em um grupo de troca de informações entre jornalistas e policiais que agentes da Polícia Militar (PM), Polícia Federal (PF), Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Exército deveriam bater em indígenas até “deixar o lombo mais mole que a barriga”.

A mensagem foi enviada após conflitos entre indígenas da Terra Indígena (TI) Rio das Cobras, de Nova Laranjeiras, e Polícia Rodoviária Federal (PRF) serem registrados e recebeu apoio de um policial civil de Pato Branco, Juliano Riboli: “Senta o dedo PRF”.

A conversa obtida pela reportagem do Brasil de Fato Paraná aconteceu no dia 16 de novembro, em um grupo chamado Diário da Informação.

Desde o dia 11 de novembro, uma série de conflitos foi registrada na BR 277, que margeia a TI Rio das Cobras, após a prisão de quatro indígenas Kaingang envolvidos no saque a um caminhão baú carregado de pneus.

No mesmo dia, imagens mostrando indígenas pisoteando o corpo de um homem morto em um acidente de trânsito foram divulgadas.

Cinco dias depois, os indígenas presos foram transferidos e um ato contra o edital 47/2020 do governo do Estado estava previsto para acontecer na rodovia. Segundo a comunidade, um indígena foi atropelado pela PRF e, por não receber ajuda, uma viatura foi retida, o que aumentou a repressão.

Na conversa pelo Whatsapp, uma nota sobre a transferência desses quatro indígenas presos foi compartilhada, seguida de imagens dos conflitos. Uma pessoa disse que “alguém tem que fazer alguma coisa” e que “essa gente”, referindo-se aos indígenas, “vai acabar matando mais inocentes na rodovia”. Depois, imagens dos conflitos foram compartilhadas.

“Esses ‘seres’ não respeitam nada nem ninguém. Senta o dedo PRF. Fazer essas ‘coisas’ aprenderem na marra a respeitar a lei e os outros”, escreveu o investigador da Polícia Civil Juliano Riboli, do Núcleo de Operações com Cães (NOC), de Pato Branco, sendo respondido pelo capitão Batista.

“Tinha que descer PM, PF, PRF, e EB com os grupos de CDC e deixar o lombo mais mole que a barriga”, escreveu o capitão.

Riboli concorda: “Ótima colocação capitão. Colocar esses em seus devidos lugares. Bando de …. Eu fico muito irritado com essa fanfarra que eles fazem”.

Na sequência, outras pessoas endossam o discurso de ódio, dizendo que são “um povo q [sic] não se aproveita nada”.

“Passa o dia bebendo e fazendo farra. Não dá lucro nenhum para a União”, escreveu um. “Esses índios aí sai [sic] um bando de folgados amparados pela velha política, não trabalham não fazem nada, só enchem o rabo de cachaça pois não precisam trabalhar, vivem melhor que nós”, disse outro.

Um terceiro enfatiza: “Será que não daria para nós cidadão de bem i [sic] junto dar uns tapas também”. E ironiza: “Nessa hora duvido que não alguém dos direitos humanos defendendo”. (As frases foram copiadas na íntegra, sem edição dos erros)

Comunidade teme

As conversas se somam a uma série de conflitos na TI Rio das Cobras. Para a comunidade, manifestações são racistas e endossam a repressão local, que tem gerado uma onda de insegurança em um território demarcado para os indígenas ainda no início do século 20, mas que é violado.

“Desde os fatos ocorridos na comunidade Indígena, vivemos apreensivos. Eles [PRF] continuam adentrando a terra Indígena pela PR Estadual, com várias viaturas. Ficam no trevo das duas BRs, com as viaturas de prontidão”, apontou Neoli Kafy Rygue Olibio, indígena Kaingang da comunidade.

Ele relata que a comunidade realizou diversas reuniões para levar ao conhecimento das famílias “as ameaças, os comentários racistas e até alguns incitando a violência e o uso da força contra a comunidade indígena”.

“Tivemos que alertar o pessoal A orientação do cacique é para cada um cuidar da sua vida. Mas o grande medo do pessoal é que eles ficam adentrado, rondando a aldeia, e que possa aí começar algum outro atrito e conflito”, complementou.

Olibio também disse que, à noite, policiais têm mirado lanternas em direção às casas da comunidade como forma de  intimidação. Os indígenas elaboram um dossiê com todas as acusações para uma denúncia de racismo contra PRF e imprensa.

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Secretaria de Segurança Pública do Paraná e não obteve resposta até o momento desta publicação.

Segundo o Portal da Transparência, o capitão Batista atua na corporação desde 1997 e hoje está à frente da 6ª Companhia de Polícia Rodoviária, localizada em Pato Branco. Juliano atua na Polícia Civil desde 2014.

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