Carta aberta a Bolsonaro. Por Paulo Nogueira

Acabou a farra para ele
Acabou a farra para ele

Esta é mais uma etapa da série Cartas aos Golpistas. O conjunto delas poderá se transformar num livro que retrate os vilões do golpe de 2016. O destinatário, desta vez, é Jair Bolsonaro.

Caro Bolsonaro:

Acabou a vida mansa para você, não é?

Durante quanto tempo você achou que poderia falar o que quisesse sem qualquer consequência, como se fosse o dono do Brasil?

Foi confiante em sua invulnerabilidade que você pronunciou aquela frase infame para a deputada Maria do Rosário. Disse que ela não merecia ser estuprada.

Foi uma monstruosidade. Mas você jamais mostrou nenhum arrependimento. Sua arrogância só foi detida recentemente, quando o STF decidiu torná-lo réu por incitação ao estupro e por injúria.

Com esta você não contava, definitivamente. Seu tom mudou. Numa entrevista, pediu “humildemente” aos juízes que não o condenem. É uma cena nova, e de certa forma divertida, vê-lo na condição de suplicante.

O que parece ter ficado claro é que os brasileiros — descontados os fanáticos que o apoiam — perderam a paciência com você. Um sinal disso foi o escracho recente a que foi submetido. O homem que metia medo em todo mundo foi chamado de golpista e estuprador por uma pequena multidão que parecia representar um país inteiro.

E não fez nada. O valentão ficou parado.

Olhadas as coisas em retrospectiva, o marco zero da mudança foi a sessão grotesca da Câmara que aprovou o impeachment de Dilma, sob o comando do rei dos corruptos Eduardo Cunha.

Você dedicou seu voto, sem o menor constrangimento, a um torturador. A um homem que fez coisas inacreditáveis contra mulheres presas na ditadura.

Naquela sessão, em que o Brasil virou piada no mundo e em que ficou claro o caráter indecente do golpe, você acabou levando uma cusparada de Jean Wyllys, a quem tantas vezes depreciou por ser homossexual.

Provocado mais uma vez por você com seu repertório homofóbico que tanto mal faz à sociedade, Jean Wyllys mostrou ali mais coragem que você com suas bravatas infindáveis.

A cusparada foi um ato de bravura e de redenção. E foi também um basta a um homem sem limites, a um valentão de fancaria.

Você não se deu conta. Mas já é um morto vivo na política nacional. Daqui por diante, vai ter que pensar sempre duas vezes antes de sair para as ruas, onde o aguardarão escrachos e câmaras ávidas por registrar as cenas e espalhá-las nas redes sociais.

Sinceramente.

Paulo

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