Carta de uma jornalista ao amigo de infância que se tornou médico bilsonarista: “por que tanto ódio?”

 Foto: Karina Zambrana/ASCOM/MS – 27.set.2013

Publicado originalmente no perfil da autora no Facebook

POR LUCIA HELENA ISSA

CARTA ABERTA A UM AMIGO ODIADOR DE CUBA SOBRE OS MÉDICOS CUBANOS

Querido amigo,

Tantos anos se passaram desde a nossa infância, desde as nossas férias de verão, quando brincávamos juntos no mar ainda verde esmeralda de Ubatuba, onde nossos pais tinham a casa de praia e onde vivemos grande parte da magia daqueles anos.

Você sempre sonhou em ser médico. Desde aquela tarde de janeiro em que levei 6 pontos na mão, depois de um tombo de bicicleta, quando você me socorreu e, antes de chamar minha mãe, amarrou sua camiseta no ferimento para parar o sangue que escorria pelas areias da rua que dava acesso ao mar de Ubatuba.

Eu tinha apenas 9 anos e já sonhava em ser jornalista e contar histórias de guerras e de amor.

Você tinha apenas 12 anos e sonhava em ser médico.

Aquela menina ainda vive em mim tornou- se de fato uma jornalista e uma escritora que conta histórias da Palestina, da guerra na Síria e de mulheres refugiadas.

Descobri que que você se tornou também um médico, mas quando nos reencontramos na última vez uma tristeza imensa colonizou meu coração. Quando foi que aquele menino repleto de sonhos deu lugar a um médico que relativiza seu juramento, um médico que hoje é a favor da pena de morte, que perdeu todos os seus sonhos e que me parece mais fascinado pelo ódio, pelas armas , por Bolsonaro e suas ações que celebram apenas a morte, do que por salvar vidas? Quando foi que aquele menino que sonhava em resgatar vidas passou a celebrar a morte e a justificar a destruição do legado deixado pelos médicos cubanos, que aqui salvaram milhares de vidas?

Bolsonaro hoje tenta apagar a verdade histórica, tenta associar médicos cubanos às suas delirantes teorias, e tenta destruir o legado dos médicos cubanos no Brasil, mas Bolsonaro será julgado pela HISTÓRIA.

Lembro- me que, quando eu voltei de Havana, onde morei por alguns meses quando estava terminando a faculdade de Jornalismo e meu TCC, sobre a vida em Cuba, você ainda não havia sido sequestrado pelo ódio e conversamos por horas sobre os fantásticos médicos cubanos!

O que aconteceu com você e com tantos amigos médicos ? Por que tanto ódio aos médicos que salvaram milhares de vidas no Brasil, sobretudo de nossos irmãos mais pobres?

Desde que tudo aconteceu, desde que Bolsonaro agiu de forma imoral e provocou a saída de mais de 8000 médicos cubanos que atendiam nossos irmãos nas regiões mais pobres do País, tenho visto, com imensa tristeza o ódio e a crueldade, caminhando rapidamente pelas redes, ao lado de seus pais, a ignorância e o medo.

Por que tanto ódio pelos médicos que têm sido enviados para salvar vidas em 66 países do mundo? Você conhece um pouco da história de Cuba?

Você sabia que Fidel nasceu em uma família bastante rica de Cuba e descobriu, ao crescer, que mais de 60 por cento das crianças da ilha estavam morrendo de desnutrição e que muitos médicos haviam fugido da ilha depois da Revolução e ele poderia contar apenas com 14 deles?

Você sabia que Che Guevara, médico como você, pediu a Fidel que investisse em salvar vidas, que criasse várias faculdades de medicina, que criasse uma rede de médicos de família, idealizada por ele, para que pudessem de fato salvar as crianças que estavam morrendo na ilha?

Você sabia que Cuba passou então a universalizar o acesso a saúde e às faculdades de todas as províncias da ilha?

Você sabia que os cursos de medicina existem em todas as microrregiões do país e que cada uma dessas faculdades chega a formar 100 médicos por ano, totalizando quase 2000 médicos por ano na ilha? Sim, só a famosa e imensa ELAM, a Escola Latino Americana de Medicina, que visitei 3 vezes, recebe milhares de estudantes, inclusive muitos estrangeiro e já chegou a receber 1.000 estudantes de medicina por ano. Você sabia que , segundo a ONU, antes da Revolução, a maior parte das terras da ilha estava em poder dos americanos, que pagavam 50 centavos de peso por 12 horas de trabalho de um cubano? E que de 1, 5% das terras pertencia aos escravagistas e violentos senhores de terras cubanos? Você sabia que, um ano antes de a Revolução triunfar em Cuba, 60% dos cubanos viviam em bohios, uma favela ainda mais pobre e triste do que qualquer favela que você tenha visto?

Você sabia que, antes da Revolução de Che e Fidel, 43% dos adultos eram analfabetos, e 47 % das crianças não ia a escola, e hoje o analfabetismo não existe na ilha?

Você sabia que 30 % da capital, Havana, antes do trinfo de Che e Fidel , não recebia eletricidade, pois eram os americanos que decidam quem merecia ter eletricidade e quem não merecia? Você sabia que a soma das apostas nos cassinos cubanos diariamente era de 266,000 dólares, mas nada desse dinheiro ia para as escolas ou os hospitais, apenas para um grupo de mafiosos cubanos?

Você sabia que Cuba teve, depois do médico Che Guevara , índices tão baixos de mortalidade infantil quanto os da Suíça? Você sabia que, mesmo com o embargo comercial criminoso dos EUA contra Cuba, durante muitos anos, a ilha teve o melhor sistema de Saúde do continente, conseguindo erradicar muitas doenças , atendendo gratuitamente a 100″% dos cubanos e ainda atendendo milhares de pacientes italianos e brasileiros, que ainda vão para a ilha para tentar curar doenças de pele, fazer um transplante de rim ou fazer um tratamento que na Europa custaria milhares de euros?

Deixo aqui meu afeto pelo menino que queria ser médico e salvar o mundo, assim como eu queria lutar pela paz e escrever sobre a crueldade das guerras. Deixo também minha imensa tristeza pelo momento que vivemos, pelo ódio aos cubanos, pelas guerras alimentadas pelos EUA, pelos milhões de refugiados. A menina que vive em mim ainda tem esperanças de reencontrar aquele menino.

Sonha em viver em um Brasil menos desigual, um Brasil cujo símbolo máximo não sejam dedos apontados para nós em forma de arma, um Brasil onde o projeto do governante seja o de salvar vidas e não o de incitar a morte.

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