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Carta do Papai Noel a Michel Temer. Por Jornalistas Livres

(Brasília, DF 16/12/2016) Presidente Michel Temer e a Primeira-Dama Marcela Temer durante entrega de presentes feita pelo Papai Noel dos Correios.
Foto: Beto Barata/PR

À sua excelência sr. Presidente Michel Temer,

Em dezembro passado recebi uma carta de desabafo de vossa excelência lamentando determinadas situações e desejando, de maneira discreta, guinadas “radicais” na política e sociedade brasileira.

As lamentações versavam sobre a desconfiança da então presidente Dilma Rousseff sobre lealdade política, o fato do senhor ser tratado como vice decorativo, além da perda de seu protagonismo político nos últimos anos e a não nomeação dos seus afiliados partidários.

Entre a leitura de diversas cartas e as realizações de muitas solicitações que recebo nessa época do ano, consegui concretizar, de forma quase milagrosa, um dos vossos sonhos mais profundos: a almejada presidência do Brasil. Sei que sua excelência ambicionava esse cargo há muito tempo.

Diante do esforço empreendido na realização dessa empreitada, dou-me a liberdade de escrever esta carta para, desta vez, apontar as minhas lamentações e agruras.

Como é de amplo conhecimento, as minhas atividades destinam-se em fomentar a esperança e presentear diversos pessoas que acreditam na magia do Natal. Essa difícil tarefa é concretizada, todos os anos, devido ao apoio daqueles que ficaram conhecidos como “ajudantes de Papai Noel”, especialmente duendes e reinas.

Poucas pessoas sabem, entretanto, que o Papai Noel e sua equipe escolheram o Brasil, devido ao clima agradável e natureza exuberante, para residir boa parte do ano. Todavia, as ações do vosso governo estão prejudicando as tradicionais atividades do Papai Noel e em especial dos meus ajudantes.

As reinas têm suas atividades intensificadas no período natalino. Nos demais meses, essas criaturas encantadoras desenvolvem diferentes trabalhos na sociedade brasileira. Entretanto, no ano de 2016 ficaram desempregadas somando-se aos 12 milhões de brasileiros que amargam essa condição. Acreditavam que com a mudança do governo a situação melhoraria. Chegaram a bater panelas e protestar nas ruas vestidas de verde e amarelo. Frustradas, passam o dia tentando criar poções mágicas para voltar no tempo.

Os duendes são as maiores vítimas do vosso governo. Muitos não conseguiram concluir seu estudo na idade da adolescência e, por isso, recorriam ao programa Brasil Alfabetizado, interrompido logo após a posse de sua excelência.

Alguns dos filhos desses duendes entraram no ensino superior e sonhavam com a realização de uma graduação sanduíche (parte no Brasil e parte no exterior) através do programa Ciência sem Fronteiras, agora vedado para essa modalidade de ensino.

Os duendes jovens estão ainda mais apreensivos. Assustaram-se com a MP que propõe a reforma do ensino médio e a possibilidade de profissionais com o suposto notório saber e sem conhecimentos pedagógicos assumirem salas de aula.

A PEC 55/241, aprovada no último dia 13, preocupa a todos, especialmente os enfermos que precisam acessar a rede pública de saúde. Duendes e reinas afirmam que se atualmente a saúde brasileira encontra-se na UTI, com a PEC e o congelamento dos gastos públicos por 20 anos teremos uma significativa redução da verba para essa área e, consequentemente, o seu agravamento. Não pretendo polemizar o assunto – estou cansado de ser confundido com comunista -, mas o comentário é que a PEC foi editada, na verdade, para disponibilizar vultosos recursos para subsidiar o setor financeiro.

Mas o golpe final do vosso governo foi infligido com a proposta da reforma da previdência. Duendes e reinas terão que trabalhar até os 65 anos de idade e caso almejem a aposentadoria integral deverão labutar por 49 anos. Impossível!

Sobre este ponto, eu, Papai Noel, aguardo ansioso a minha aposentadoria. Na realidade, conto os dias. Nos meus imprecisos cálculos faltam somente 10 anos para isso. Mas, se compreendi bem a proposta que tramita no Congresso, terei que trabalhar, além dos 10, mais 5 anos de pedágio. Todos esses anos de tralhado geraram diferentes problemas de saúde, como dor nas costas, bico de papagaio, bursite, etc. Sinceramente, sr. Presidente, não sei se conseguirei suportar esse tempo adicional.

Diante desse cenário, chamou-me a atenção nas cartas que estou recebendo este ano uma forte carga de desesperança e quiçá desespero. Lembrei do ditado popular que diz que “povo sem esperança é um povo morto”.

Dito isso e recorrendo a ampla popularidade da figura do Papai Noel, especialmente neste período do ano, venho solicitar que sua excelência repense a permanência em cargo tão importante. Caso renuncie até o dia 31 de dezembro, a população brasileira terá a oportunidade de escolher um(a) presidente que seja sensível às demandas populares. Insisto que caso prossiga no governo, a tradicional esperança brasileira renovada no período natalino esvaíra.

Velho Batuta [transcrito por Francisco Vagner – devido a uma tendinite], especial para os Jornalistas Livres.

Diario do Centro do Mundo

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