
Uma discussão aparentemente banal sobre o uso de um micro-ondas terminou em um acordo de US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão) entre dois estudantes indianos e a Universidade do Colorado Boulder, nos Estados Unidos. O caso reacendeu o debate sobre discriminação cultural e o que passou a ser descrito como “racismo alimentar” em países ocidentais.
Aditya Prakash e sua noiva, Urmi Bhattacheryya, moveram uma ação por direitos civis contra a universidade após alegarem ter sofrido uma sequência de “microagressões e retaliações” depois que Prakash foi repreendido por aquecer seu almoço no campus. Segundo uma reportagem da BBC, o episódio ocorreu em setembro de 2023, quando um funcionário teria se oposto ao aquecimento de um prato de palak paneer, alegando que o cheiro era “pungente”.
De acordo com o processo, Prakash questionou a existência de uma regra que proibiria alimentos com cheiro forte no micro-ondas. Ele afirma que foi informado de que sanduíches não se enquadravam na restrição, mas que curry sim. A partir desse episódio, o casal sustenta que passou a sofrer tratamento discriminatório, que culminou na perda de bolsas de pesquisa, funções de docência e até orientadores acadêmicos.
Em resposta à BBC, a Universidade do Colorado Boulder afirmou que não comentaria as “circunstâncias específicas” do caso por questões de privacidade, mas disse estar “comprometida em promover um ambiente inclusivo para todos os estudantes, professores e funcionários, independentemente de origem, religião, cultura e outras categorias protegidas pelas leis dos EUA e pelas políticas da universidade”.

“Quando essas alegações surgiram em 2023, nós as levamos a sério e aderimos a processos estabelecidos e robustos para tratá-las, como fazemos com todas as denúncias de discriminação e assédio. Chegamos a um acordo com os estudantes em setembro [de 2025] e negamos qualquer responsabilidade neste caso”, declarou a instituição.
Prakash afirma que o objetivo da ação nunca foi financeiro. “Foi sobre mostrar que há consequências para quem discrimina indianos por causa da sua ‘indianidade'”, disse.
O indiano também afirmou que viveu episódios semelhantes ainda na infância, quando crescia na Itália. “Atos como me isolar dos meus colegas europeus ou me impedir de usar um micro-ondas compartilhado por causa do cheiro da minha comida são formas de pessoas brancas controlarem a sua indianidade e restringirem os espaços em que você pode existir”, contou.
Bhattacheryya também relatou ter sido alvo de retaliações após convidar o noivo para dar uma palestra sobre relativismo cultural em sua aula. Ela diz que sofreu ataques racistas ao relatar o caso nas redes sociais, com comentários como “Voltem para a Índia” e “Não é só a comida, muitos de vocês não tomam banho e nós sabemos”.
O acordo firmado prevê a concessão dos diplomas aos estudantes, mas proíbe que eles voltem a estudar ou trabalhar na instituição. Desde então, o casal retornou à Índia e afirma que talvez nunca mais volte aos Estados Unidos.
“Não importa quão bom você seja no que faz, o sistema está constantemente dizendo que, por causa da sua cor de pele ou nacionalidade, você pode ser mandado de volta a qualquer momento”, disse Prakash.