“Casei com homem pobre”: o que realmente significa a fala de Fernanda Lima

Atualizado em 13 de abril de 2026 às 13:29
Rodrigo Hilbert e Fernanda Lima. Foto: Divulgação

Em entrevista recente ao podcast Terapira, uma fala aparentemente polêmica da atriz, modelo e apresentadora Fernanda Lima viralizou: “Minha avó casou com homem pobre. Minha mãe casou com homem pobre. Eu casei com homem pobre.”

A fala foi tirada de contexto por diversos veículos, mas o que está por trás dela é talvez um dos debates mais importantes da atualidade — não só no que diz respeito a relacionamentos, mas sobretudo no que se refere aos papéis de gênero na sociedade.

Embora a fala tenha sido colocada como ataque direto ao marido Rodrigo Hilbert — hoje milionário, é claro, assim como a própria Fernanda —, a entrevista tomada em sua completude permite compreender o que de fato ela quis dizer: dividir as contas não é só uma questão de ajuste íntimo de convivência. Para a mulher, é questão de sobrevivência, mesmo.

Fernanda chegou a dizer, e com razão, que buscar homem rico como salvação é “patético”.

E não é?

Essa fala se torna importante por uma grande razão: vivemos uma pós-modernidade estranhíssima, em que uma parcela considerável das mulheres tem buscado homens provedores — depois de tanta luta para conquistarmos o mercado de trabalho, é de cair o c* da bunda.

Cada uma sabe de si, é verdade, e, se você, amiga, quer depender de um homem a vida inteira até para comprar seus absorventes, só para poder fazer bolo às 15h, tudo bem.

O problema é que esse discurso — macho provedor, fêmea beta, homem de valor etc. — é papo de redpill e legitima uma lógica tosca e antiquíssima: homem sustenta, mulher se submete.

O coach Thiago Schutz, que ficou conhecido por espalhar o conceito ‘red pill’. Foto: Reprodução

Eu não estou dizendo, com isso — nem Fernanda, volto a dizer —, que dividir as contas no casamento deve ser uma regra rígida. Quem pode mais paga mais, quem pode menos paga menos, e ambos se apoiam em tempos de vacas magras — esse seria o acordo ideal para mim, e talvez não seja para você, e, mais uma vez, tudo bem.

Mas depender completamente de um homem para viver, em pleno 2026, não é só patético; é preocupante e potencialmente perigoso.

O casal, pasmem, tem sido atacado pela fala de Fernanda Lima, que, no fim das contas, é um discurso potente de autonomia feminina. Ela disse apenas o óbvio: depender financeiramente de um homem tira a liberdade feminina — e isso é fato, não argumento.

Muitas têm falado do “dinheiro do não” — aquele que te permite sair de uma relação ruim porque você tem meios para se sustentar.

E tem gente criticando isso?

O que está por trás da fala de Fernanda Lima é importantíssimo de ser dito, sobretudo em tempos de um retorno cruel da ideia de subserviência feminina: você não precisa escolher entre carreira ou casamento, mas você precisa, definitivamente, ter o seu.

O que ela disse, no fundo, é simples: casamento é parceria, não negócio lucrativo para mulher — porque esse “lucro”, que voltou à moda, se converte em prisão antes que você consiga arrumar seu currículo.

E, se até Fernanda Lima tem que correr atrás, quem sou eu para ser esposa troféu?

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.