Caso Elon Musk: empresas dos Estados Unidos ‘brincam’ de derrubar presidentes

O CEO da Tesla, Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo (Crédito: AFP/Arquivos)

Publicado no site Rede Brasil Atual (RBA)

O bilionário e diretor da empresa Tesla dos Estados Unidos, Elon Musk, provou na última sexta-feira (24) não ser uma mera “teoria conspiratória” a participação de grupos multinacionais em golpes apoiados pelos EUA para derrubar presidentes de outros países. Ao responder uma provocação dirigida a ele no Twitter que dizia, “você sabe o que não interessa às pessoas? O governo dos EUA organizando um golpe contra Evo Morales na Bolívia para que você possa obter lítio lá”, Musk rebateu: “Vamos dar golpe em quem quisermos! Lide com isso”.

A Tesla é fabricante de automóveis que produz os chamados carros elétricos, considerados o futuro do mercado automobilístico. Apesar de se venderem como sustentáveis, esse tipo de veículo também depende de minerais como o lítio, já empregados na construção de baterias para outros carros, celulares e computadores. A Bolívia tem a mais conhecida reserva de lítio do mundo, no entorno de desertos montanhosos como o Salar de Uyuni.

Antes de ser deposto por um golpe de Estado, em 10 de novembro de 2019, o então presidente da Bolívia, Evo Morales, promoveu um processo de nacionalização dos recursos naturais do país. O que desde então o tornou alvo de ataques por parte de militares e da oligarquia boliviana em nome das empresas mineradoras transnacionais. “E agora sabemos que explicitamente o que todo mundo já sabia, Evo foi derrubado por interesses econômicos dos Estados Unidos”, destaca o analista e consultor internacional Amauri Chamorro.

O histórico interesse acima das nações

Em entrevista ao jornalista Glauco Faria, do Jornal Brasil Atual, Chamorro rebate que sejam meras “teorias conspiratórias” as relações que ligam os EUA aos processos de violência e golpes de estado. “Na verdade, teoria da conspiração é muito mais uma tentativa por parte dos Estados Unidos de mitigar o impacto verdadeiro da história. Na América Latina e Central há momentos importantes de intervenção de empresas dos Estados Unidos no continente”, afirma.

O analista aponta, por exemplo, para o caso conhecido da United Fruit Company, companhia que monopolizava a produção e a comercialização de frutas que ao longo da segunda metade do século 20 passou a controlar governos latino-americanos, instalando ainda processos de guerras civis na América Central. E também a Standard Oil Company, empresa dos magnatas dos EUA John Davison Rockefeller e  William Rockefeller, que também iniciaram e financiaram um processo de ditaduras na América do Sul. “E agora temos uma coisa sui generis, que é realmente o dono de uma empresa falar que financiou e banca o golpe de estado na Bolívia e perguntar qual é o problema?”, crítica Chamorro.

“E o problema é isso mesmo. Eles não estão preocupados, não veem nenhum tipo de problema. Há uma história de longa data de empresas dos Estados Unidos utilizando o planeta como se fosse um jogo, um monopólio, brincando de derrubar ou não presidentes e governos, e matar pessoas para terem seu lucro”, explica o analista e consultor. “Essa é a influência dos EUA. Por isso que a indústria cultural, os meios de comunicação e a indústria militar se articulam para permitir esse tipo de barbaridade para que alguma empresa, ou algum setor econômico dos Estados Unidos seja beneficiado, nesse caso, o setor de produção de carros elétricos.”

Elon Musk e o golpe pelo lítio da Bolívia

Depois do golpe que tirou Evo Morales da presidência, pesquisadores da Universidade Tulane e da Universidade da Pensilvânia concluíram recentemente que o relatório final da Organização dos Estados Americanos (OEA), que colocou em dúvida a votação que consagrou a reeleição de Evo, tem falhas metodológicas que comprometem o seu resultado. A análise reforça o entendimento do Laboratório de Ciência e Dados Eleitorais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que já havia contestado a alegação de fraude, na eleição em 2019, apontada pela OEA.

Nove meses após o golpe, a Bolívia ainda está longe da normalidade democrática. As novas eleições, que seriam em maio, foram transferidas para o início de setembro devido à pandemia do novo coronavírus. Mas já foram novamente remarcadas para 18 de outubro. A “presidenta interina” Jeanine Áñez, que assumiu o poder desde então, tem como vice o empresário Doria Medina, que já defendeu a construção de “uma gigante fábrica (da Tesla) no Salar de Uyuni para fornecer baterias de lítio”.

“A ação deles agora é impedir Evo Morales de participar das eleições”, adverte Amauri Chamorro. “Estão com um processo de anular a inscrição do partido (o MAS) no Conselho Nacional Eleitoral, sendo que o partido lidera disparado as pesquisas. E ganharia no primeiro turno, sem dúvida alguma, além de conseguir a maioria no Parlamento”, afirma o analista internacional.

Neste sábado (25), Evo Morales garantiu em sua conta no Twitter que a declaração de Elon Musk é mais uma “prova de que o golpe foi dado pelo lítio boliviano”.

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