
POR GABRIEL SIQUEIRA
“Como podemos pedir para vítimas de crimes denunciarem, se o Epstein brasileiro vive numa mansão em Anápolis?”
A pergunta é do Movimento COAME (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), grupo de ativistas que há anos acompanha vítimas de abusos em espaços religiosos e foi responsável por reunir centenas de depoimentos contra João Teixeira de Faria, o “João de Deus”. Em mensagem enviada ao DCM, o movimento denuncia: “João Teixeira de Faria é o ‘Epstein brasileiro’ e continua na cabeça com seu filho Sandro Teixeira ameaçando testemunhas e ativistas.”
Agora, sete anos depois da prisão do médium e seis após a morte suspeita da ativista Sabrina Bittencourt, novos elementos reacendem o caso. Em janeiro de 2026, o Departamento de Justiça dos EUA liberou 3,5 milhões de páginas do caso Jeffrey Epstein.
Entre os documentos, um e-mail de dezembro de 2020 em que um autor desconhecido (nome censurado) cita nominalmente a ativista brasileira Sabrina Bittencourt e suas denúncias contra João de Deus — especificamente sobre “fazendas de bebês” em Goiás: “Centenas de meninas foram escravizadas ao longo de anos, viveram em fazendas em Goiás e serviram como úteros para engravidar e ter seus bebês vendidos.”
E continua:
“[CENSURADO] falou sobre isso acontecendo no Zorro Ranch. Ela declarou oficialmente que Epstein ofereceu dinheiro a ela para fazer isso. Parir bebês para uso no mercado negro.”
O remetente traça um paralelo direto entre as fazendas de João de Deus e o Zorro Ranch de Epstein, um rancho no Novo México que abrigaria parte da rede de tráfico sexual do bilionário americano.
Não há prova de ligação direta entre João de Deus e Epstein. Mas o e-mail oficial do DOJ confirma que as denúncias de Sabrina foram consideradas relevantes o suficiente para chegarem ao radar das investigações norte-americanas sobre tráfico sexual — justamente por descreverem um padrão parecido com o que se suspeitava no rancho de Epstein.
No Brasil, porém, essas mesmas denúncias não trouxeram justiça para as vítimas até hoje. João Teixeira de Faria, o João de Deus, foi condenado, em 2023, a 489 anos de prisão por crimes sexuais contra 56 mulheres. Outras 600 mulheres denunciaram abusos. Ele nunca cumpriu mais de 15 meses em regime fechado. Preso em dezembro de 2018, conseguiu prisão domiciliar em março de 2020, durante a pandemia de Covid, pois sua defesa alegou que ele teria idade avançada e era grupo de risco. João de Deus voltou brevemente ao presídio em 2021, mas uma decisão de 2ª instância o devolveu para casa, onde está até hoje.
A “casa” é uma mansão de três andares em Anápolis, avaliada em R$ 1 milhão, com segurança 24 horas. Ele segue vendendo “mesas de cristal” a preços altos para compradores estrangeiros. Do outro lado, O COAME alerta que em Abadiânia, “ativistas, vítimas e testemunhas vivem com medo.”Mensagens de WhatsApp obtidas pelo DCM falam de famílias sendo extorquidas por policiais ligados a João de Deus e seu filho Sandro Teixeira.
O que Sabrina denunciou — e como morreu
Entre 3 e 8 de janeiro de 2019, Sabrina Bittencourt, cofundadora do movimento COAME (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), formalizou ao Ministério Público de São Paulo acusações devastadoras:
- Que João de Deus comandava, há pelo menos 20 anos, uma rede de tráfico internacional de bebês.
- Que mulheres negras e pobres de Abadiânia, Anápolis e norte de Minas eram mantidas em cárcere privado em fazendas, obrigadas a engravidar repetidamente.
- Que os bebês eram vendidos no mercado ilegal — EUA, Europa, Austrália — por 20 a 50 mil dólares cada.
- Que centenas de meninas de 14 a 18 anos teriam sido escravizadas assim, muitas assassinadas após anos parindo.
O COAME revela um detalhe perturbador: “A própria neta de João de ‘Deus’ (Luana Honda – filha de Dalva Teixeira, abusada pelo pai) enviou nomes e relatos sobre crimes para Sabrina Bittencourt.
Sabrina entregou relatos de mães adotivas em três continentes, depoimentos de ex-funcionárias, listas de nomes e rotas. O MP-SP confirmou publicamente ter encaminhado o material ao MP-GO e ao MPF. O MP-GO criou força-tarefa, ouviu Sabrina — mas deixou claro que o “foco” seria os crimes sexuais e que tráfico internacional seria “da Polícia Federal”. Não há registro de que tenha sido efetivamente repassado.
Um mês depois, em 2 de fevereiro de 2019, Sabrina foi encontrada morta em Barcelona. Autoridades espanholas classificaram como suicídio. Família e ativistas questionaram. Até hoje, não há investigação conclusiva.

O perigo da extrema-direita
O COAME é enfático sobre as consequências do silêncio institucional: “Permitiram que se criassem fake news absurdas sobre o caso até parecer que não passou de um delírio. Não foi por falta de provas que uma rede famosa de tráfico humano no Brasil não foi desmantelada. Foi por falta de vontade política. Falta de coragem. Falta da sociedade se levantar e defender crianças e mulheres invisíveis para o sistema. Mulheres e crianças desaparecidas. Bebês que sequer foram registrados.”
A extrema-direita já está usando o e-mail dos Arquivos Epstein para criar narrativas conspiratórias tanto nos EUA quanto no Brasil: Oprah, Clinton, “globalistas”, “Ilha de Marajó”, tudo misturado. É preciso separar fatos de delírio. Fatos verificáveis:
Oprah Winfrey visitou João de Deus em 2012, deu projeção internacional a ele, mas não aparece em documentos de Epstein, ao contrário do que diziam muitas teorias da conspiração. Checagens de USA Today, Africa Check e AFP desmentiram isso.
Bill Clinton e Naomi Campbell aparecem tanto em registros de visitas a João de Deus quanto em flight logs de Epstein.
Isso não prova rede integrada de crimes, mas demonstra que ambos orbitavam o topo da elite global, onde tanto o médium (via Oprah) quanto o bilionário (via jatos e conexões) tinham acesso.
A verdadeira história não é “Oprah e Clinton comandam fazendas de bebês”. A verdadeira história é como figuras de prestígio foram usadas para blindar redes de abuso, e como o silêncio do Estado e a demora da Justiça abrem espaço para fake news de extrema-direita e perpetuaram a impunidade.
O dossiê que foi parar em Abadiânia e não deu em nada
Conheci o trabalho de Sabrina Bittencourt há muitos anos, bem antes de seu nome estampar manchetes internacionais como a mulher que desmascarou João de Deus. Era uma época em que ela trabalhava com Educação Livre e propunha redes de apoio a famílias.
Nunca imaginei que, anos depois, eu estaria diante de documentos oficiais do Ministério Público Federal provando que as denúncias mais graves que ela formalizou — sobre tráfico internacional de bebês e “fazendas de escravas sexuais” ligadas ao médium — foram protocoladas, distribuídas entre MPF e MP-GO, e simplesmente sumiram do radar público. Sem investigação transparente. Sem denúncia criminal. Sem arquivamento fundamentado. Apenas silêncio institucional.
Documentos internos do Ministério Público Federal obtidos pelo DCM mostram o seguinte: em 8 de maio de 2019, o MPF em Anápolis/Uruaçu registra a Digi-denúncia nº 20190032241/2019, relacionada a João de Deus e ao material enviado por Sabrina Bittencourt sobre tráfico de crianças. Em 10 de maio, uma certidão identifica que o dossiê se relaciona à Notícia de Fato nº 1.18.001.000074/2019-64, já aberta sobre o médium. Mas há um problema: essa Notícia de Fato já tinha sido encaminhada ao Ministério Público do Estado de Goiás, em Abadiânia, desde 25 de janeiro de 2019.
Em 21 de junho de 2019, o procurador da República Wilson Rocha Fernandes Assis assina despacho remetendo toda a documentação ao MP-GO de Abadiânia — justamente a cidade dominada pelo médium por décadas.
O Portal da Transparência do MPF registra: “Movimentado para – PROMOTORIA DE JUSTIÇA DE ABADIÂNIA”. E ali, numa cidade de 20 mil habitantes onde João de Deus mandou com jagunços, influência política e econômica absoluta, o dossiê ficou.
O COAME descreve o que aconteceu depois: “Relatos e dados confidenciais sobre os casos ficaram lá (parados?) no MP de Abadiânia. Logicamente não indiciaram, não abriram investigação, não encaminharam para a PF. E também não arquivaram. Qualquer servidor público que tenha acesso ao sistema pode ler a denúncia e dados sensíveis.”
Segundo a Resolução CNMP nº 174/2017, uma Notícia de Fato deve ser apreciada em até 90 dias, com instauração de inquérito ou arquivamento fundamentado. Passaram-se sete anos. Não há registro público de nenhuma das duas coisas.
Sete anos depois, nenhuma ação penal por tráfico de pessoas. Nenhum inquérito conhecido sobre adoção ilegal internacional. Nenhuma decisão pública de arquivamento. Apenas um silêncio ensurdecedor.
Isso é descumprimento da própria resolução do CNMP. Na prática, vítimas, testemunhas e ativistas vivem num limbo: não sabem se foram investigadas, se houve arquivamento, ou se os relatos simplesmente ficaram numa gaveta até prescreverem.
A conexão com o caso Epstein pode ser a oportunidade para recolocar esse caso na agenda pública — não com teorias conspiratórias, mas com perguntas simples: onde estão as investigações? Por que o silêncio? Quantas outras Sabrinas precisarão morrer?