Caso Epstein: Marido brasileiro de ex-embaixador pode derrubar Keir Starmer

Atualizado em 5 de fevereiro de 2026 às 6:30
Reinaldo Avila da Silva e Peter Mandelson. Foto: reprodução

Peter Mandelson, ex-embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, ex-ministro no governo Gordon Brown e integrante da Câmara dos Lordes, anunciou no domingo (1º) sua saída do Partido Trabalhista, legenda do primeiro-ministro Keir Starmer. Ele afirmou que não queria provocar mais desgaste por causa de suas ligações com o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein.

O nome de Mandelson e de seu marido, o brasileiro Reinaldo Avila da Silva, aparece entre milhões de documentos tornados públicos recentemente nos Estados Unidos. Trata-se do maior volume de material divulgado desde que uma lei americana determinou a liberação desses arquivos no ano passado.

Na segunda-feira (2), o Partido Nacional Escocês (SNP) e o Partido Reformista apresentaram denúncia contra Mandelson à Polícia Metropolitana de Londres. E-mails indicam que ele teria repassado informações internas do governo britânico a Epstein quando era secretário de Negócios, em 2009. Entre os pontos citados está um suposto aviso antecipado sobre um pacote de resgate de € 500 bilhões da União Europeia para proteger o euro.

A Polícia Metropolitana informou ter recebido várias denúncias sobre possível má conduta em cargo público e que avaliará se há indícios de crime.

Keir Starmer determinou uma investigação urgente sobre os contatos de Mandelson com Epstein durante o período em que ocupava funções ministeriais. De acordo com fontes do gabinete do premiê, há avaliação de que Mandelson não deveria permanecer na Câmara dos Lordes.

How much did the Epstein poison infect Britain? Starmer had better find  out, and fast | Gaby Hinsliff | The Guardian
Peter Mandelson e Keir Starmer em uma recepção na residência do embaixador em Washington, 27 de fevereiro de 2025. Fotografia: Carl Court/PA

Parte dos arquivos também sugere que Epstein realizou pagamentos que somariam US$ 75 mil entre 2003 e 2004. Mandelson declarou não ter registro nem lembrança desses valores e disse não saber se os documentos são autênticos.

Em carta ao secretário-geral do Partido Trabalhista, ele afirmou: “Fui novamente associado neste fim de semana à indignação em torno de Jeffrey Epstein e lamento por isso.” Ele também pediu desculpas às vítimas, dizendo que suas vozes deveriam ter sido ouvidas há muito tempo.

Ser citado ou ter imagens incluídas nos arquivos divulgados pelo governo americano não significa, por si só, envolvimento em crime.

Epstein e Mandelson em um iate. Foto: Departamento de Justiça dos EUA

Pagamentos atribuídos a Epstein

Registros divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA apontam três transferências de US$ 25 mil feitas por Epstein a Mandelson entre 2003 e 2004.

Os extratos bancários, noticiados inicialmente pelo Financial Times, são do período em que Mandelson era deputado trabalhista. Os valores teriam saído de contas de Epstein no banco JP Morgan.

O primeiro pagamento, de 14 de maio de 2003, foi destinado a uma conta no Barclays em que Reinaldo Avila da Silva aparece como titular. Mandelson foi indicado como beneficiário.

Mandelson e Silva se casaram em 2023.

Os outros dois pagamentos, também de US$ 25 mil cada, foram feitos para contas no HSBC com poucos dias de diferença, em junho de 2004. Nesses casos, apenas Mandelson aparece como beneficiário. Não há confirmação se os valores foram de fato depositados.

Os “arquivos Epstein”. Foto: reprodução

Empréstimo a Reinaldo Avila da Silva

Um conjunto de e-mails incluído na nova leva de documentos indica que Epstein teria enviado 10 mil libras a Silva como empréstimo para custear um curso de osteopatia.

Em mensagem de 2009, Silva detalha os custos do curso, informa dados bancários e agradece por qualquer ajuda. Horas depois, Epstein responde dizendo que faria a transferência. No dia seguinte, Silva envia agradecimento.

Essas mensagens são de junho de 2009, período em que Epstein cumpria pena por crime sexual envolvendo menor de idade. Ele tinha autorização para sair da prisão durante o dia para trabalhar e retornava à noite.

Questionado sobre o empréstimo, Mandelson afirmou já ter sido claro em entrevistas anteriores e disse não ter mais nada a acrescentar.

Tribunal Distrital dos Estados Unidos Distrito Sul de Nova York Peter Mandelson experimenta um cinto em uma loja de roupas enquanto Jeffery Epstein observa
Mandelson e Epstein. Foto: Departamento de Justiça dos EUA

Fotos encontradas nos arquivos

Imagens de Mandelson de cueca também aparecem entre os arquivos. Em uma delas, ele surge ao lado de uma mulher com o rosto borrado. Ele declarou não saber onde a foto foi tirada nem quem é a mulher, e disse não conseguir imaginar as circunstâncias do registro.

Não há informações sobre data ou local em que as imagens foram feitas.

Troca de e-mails entre Epstein e Mandelson. Foto: reprodução

Trajetória política e queda

Mandelson foi membro da Câmara dos Lordes, secretário de Negócios e vice-primeiro-ministro no governo Gordon Brown entre 2007 e 2010. Em dezembro de 2024, Keir Starmer o nomeou embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos. Ele deixou o cargo em setembro de 2025, após novas revelações sobre sua relação com Epstein.

Mensagens revelaram que Mandelson manteve contato com Epstein após a condenação do financista em 2008, com trocas de mensagens de apoio.

Em entrevista à BBC em janeiro, ele classificou essa relação como um erro grave. Também afirmou que não presenciou crimes nas propriedades de Epstein e que depois pediu desculpas às vítimas por ter mantido vínculo com ele.

O atual secretário de Habitação, Steve Reed, declarou que o governo não tinha conhecimento das supostas ligações financeiras entre Mandelson e Epstein quando ele foi nomeado embaixador. Segundo Reed, a demissão ocorreu porque Mandelson não revelou todas as informações relevantes.

Jeffrey Epstein foi condenado em 2008 após acordo judicial na Flórida e sentenciado a 18 meses de prisão. Em 2019, morreu em uma cela em Nova York enquanto aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual.