Caso Epstein: modelo brasileira conta como foi “negociada” por US$ 10 mil

Atualizado em 11 de março de 2026 às 14:10
Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. Foto: Reprodução

Aos 16 anos, Ana (nome fictício) deixou a casa dos pais no Sul do Brasil para perseguir o sonho de ser modelo. Um ano depois, sem trabalhos na agência em que atuava, o dono do local lhe apresentou uma mulher de São Paulo que prometia oportunidades na capital paulista. Com o apoio da família, ela embarcou pouco antes de completar 18 anos, nos anos 2000, com passagem paga pela nova contato.

A adolescente acabou vivendo um pesadelo: ao chegar, teve seus documentos retidos e descobriu que não haveria carreira, apenas exploração sexual. “A mulher era, na verdade, uma cafetina. A coisa foi se desenrolando e, quando eu vi, ela estava me negociando para prostituição”, conta Ana à BBC News Brasil.

Segundo ela, um dos clientes foi o bilionário americano Jeffrey Epstein, que pagou US$ 10 mil por seus serviços à intermediária, identificada como Lúcia. O depoimento é o primeiro de uma mulher que relata ter sido aliciada pelo financista no Brasil e foi corroborado por documentos apresentados por ela.

Ana descreve encontros com Epstein em um hotel de luxo no Jardim Paulista, em São Paulo, onde foi levada por Lúcia junto com outras duas garotas para que o americano escolhesse com quem ficar. “E aí ele me escolheu”, lembra.

No quarto, ela relata que Epstein não manteve relação sexual, mas pediu que ela tirasse a roupa enquanto ele se tocava. “Comparado com os outros homens com quem estive antes, ele foi muito legal. Não teve ato sexual em si. O barato dele era ficar me olhando enquanto ele se tocava. Era nojento, mas… dos males, o menor”.

Prédio de Jeffrey Epstein em Paris, na França. Foto: AFP

Dias depois, Ana foi levada a uma festa em São Paulo, onde conheceu Ghislaine Maxwell, companheira e cúmplice de Epstein, e o agente francês Jean-Luc Brunel. Foi durante o evento que o bilionário a informou: “Amanhã estou indo a Paris e você vai junto comigo. Já combinei com a Lúcia”.

A brasileira viajou com ele e relata que Brunel teria pedido para ter relações com ela, pedido negado por Epstein, que disse: “Eu não deixei porque você é minha”. Ela tinha um passaporte com visto americano de negócios emitido em nome da agência Karin Models, de Brunel, usada segundo as autoridades para atrair mulheres para o financista.

Ela fez ao menos seis viagens aos EUA até ter o visto cancelado por suspeitas das autoridades em Miami. Ao longo de quatro meses, viajou com Epstein a Paris e à ilha particular do bilionário no Caribe, onde convivia com outras jovens.

“Já não estava mais me sentindo a garota de programa. Estava achando que era namorada dele. Até então ainda não tinha caído a ficha de que ele fazia isso com muitas garotas”, contou. A brasileira decidiu encerrar o contato ao se incomodar com as mentiras para a família.

“Olhando pra trás, eu vejo que ele me tirou das mãos da Lúcia. Ele me salvou dela. Ela é que estava abusando de mim. Não tenho jamais a intenção de defender nem dizer que ele era bonzinho. Comigo foi desse jeito, mas sinto muitíssimo pelas meninas que não tiveram a mesma sorte que eu. Acredito na justiça divina, e dela ninguém escapa, nem morrendo”, completou.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.