Caso HSBC: quanto há de independência na ‘mídia independente’?

HSBC, Suíça
Um anunciante influente

Quanto há de independência real na imprensa que os suspeitos de sempre gostam de chamar, peitos estufados, de “independente”?

O episódio da estrepitosa demissão de um colunista do jornal britânico Daily Telegraph joga luzes sobre este assunto.

Peter Oborne disse que saía porque a cobertura do jornal do caso HSBC é uma “fraude contra os leitores”.

O que o jornal não quer arriscar, segundo ele, é a publicidade milionária que o banco lhe garante.

Na Era Digital, anúncios são cada vez mais escassos para a mídia impressa – e o preço a pagar por isso é o que se está vendo no Telegraph.

A independência da mídia “independente” termina na necessidade de agradar seus anunciantes.

Nos dias de ouro da mídia impressa, o quadro era outro, e era possível alguma altivez – pelo menos em sociedades com mídia mais avançada que a brasileira.

Pertence à antologia do jornalismo o embate travado, algumas décadas atrás, entre a General Motors, então a maior montadora do mundo, e a revista de negócios Fortune.

Desgostosa com uma reportagem da Fortune, a GM decidiu suspender por seis meses a publicidade na revista, da qual era o maior anunciante.

Ao saber disso, a Fortune imediatamente publicou sua resposta. Propaganda da GM não mais seria aceita na revista.

Foi um momento de glória, talvez o último, na divisão entre Igreja (conteúdo) e Estado (publicidade) que foi a essência durante muitos anos da imprensa americana.

No caso do Telegraph, pelo relato de Oborne, a Igreja foi estuprada pelo Estado.

Não será fácil administrar os danos à imagem num país como a Inglaterra, em que a opinião pública tem o poder de fechar um jornal transgressor, como foi o caso do tabloide News of the World.

No Brasil, jornalistas que estiveram ou estão em postos de comando nas grandes empresas jornalísticas conhecem muito a dura realidade da “independência” da imprensa.

Tente encontrar alguma reportagem crítica na Folha – ou no Globo, ou na Veja, ou no Estadão – sobre um grande anunciante.

Há, aqui, um complicador adicional.

Como as empresas frequentemente estiveram à beira de quebrar, por decisões de investimento catastróficas tomadas por famílias pouco capacitadas, os credores também sempre falaram alto.

Vivi uma situação dessas.

Em 1997, quando eu dirigia a Exame, fizemos uma reportagem de capa sobre o banco Safra.

Eu já tinha lido e aprovado o texto quando Roberto Civita pediu para vê-la, o que jamais acontecera.

Imprimimos o artigo e mandamos para ele. Jamais recebemos de volta. Tivemos que improvisar uma capa na última hora.

Um dos irmãos Safras ligou para Roberto Civita para conhecer detalhes da capa. E ela acabou reprovada fora da redação.

Como Safra conseguiu isso?

Porque era um dos maiores credores da Abril.

Acabou ali minha ilusão sobre a força da Igreja diante do Estado na Abril.

Interesses poderosos estão por trás das grandes decisões editoriais nas empresas jornalísticas — ou de anunciantes, ou de credores, ou simplesmente dos próprios donos.

Infelizmente, aqueles interesses quase nunca coincidem com os do leitor.

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