
Um mapeamento de atividade digital revelou que ao menos 46 perfis em redes sociais atuaram de maneira simultânea na divulgação de conteúdos contra o Banco Central, seus diretores e investigadores envolvidos no colapso do Banco Master. Os ataques, descritos por especialistas como uma “operação de bombardeio digital”, cresceram justamente no período em que a crise financeira do Master avançou para uma disputa judicial no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Contas da União (TCU), ampliando a instabilidade política e institucional. Com informações da Folha.
O movimento coordenado já havia sido observado durante a análise regulatória da tentativa de compra do Master pelo BRB, mas ganhou intensidade após a liquidação extrajudicial do banco. As postagens misturam informações distorcidas com narrativas que tentam desacreditar o BC e seus diretores, sugerindo supostos abusos de poder e questionando a lisura da fiscalização conduzida pela autarquia.
Chamou atenção o perfil dos influenciadores envolvidos: boa parte pertence ao universo de fofoca e entretenimento, sem qualquer ligação com economia ou mercado financeiro.
Um dos alvos centrais da ofensiva é Renato Gomes, ex-diretor do BC, cuja área recomendou o veto à aquisição do BRB e subsidiou os achados que motivaram a operação da Polícia Federal.
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Em uma publicação no Instagram, o perfil @divasdohumor atribuiu à gestão de Gomes “instabilidade no mercado financeiro”, afirmando que “mudanças regulatórias frequentes, interpretações voláteis das normas e ausência de sinalização clara ampliaram a insegurança jurídica”.
A postagem foi sucedida por conteúdos de celebridades, característica que reforça o caráter artificial da mobilização.
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O ataque não se restringiu ao ex-diretor. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino Santos, também se tornaram alvos de campanhas difusas, assim como entidades do setor financeiro que divulgaram notas em apoio à decisão de liquidar o Master.
A Febraban identificou um volume anormal de postagens em 27 de dezembro, com 4.560 publicações em 36 horas, indicando coordenação e possível uso de robôs.
Páginas de grande alcance, como Alfinetei (com 25,3 milhões de seguidores), Futrikei (2,4 milhões) e outras administradas por grupos como Banca Digital, Grupo Farol e Deubuzz, passaram a produzir conteúdo político no auge da crise, inclusive analisando depoimentos de Daniel Vorcaro e do presidente do BRB à PF.
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Apesar de a Banca Digital afirmar que recusou convite para participar de campanhas pagas, a semelhança das postagens e sua concentração temporal levantaram suspeitas de impulsionamento.
Outra peça chave é a reprodução de textos de sites que mimetizam portais de notícias, como o Notjournal, utilizado para insinuar que a acareação entre Vorcaro e testemunhas não teria revelado “bala de prata” e, portanto, fragilizaria a narrativa do BC.
A estratégia ecoou rapidamente: perfis com mais de 25 milhões de seguidores replicaram trechos idênticos, ampliando o alcance e tentando transformar a crise financeira em disputa política nas redes.
Nos bastidores, influenciadores chegaram a relatar que receberam propostas para aderir a uma campanha identificada como “projeto DV”, referência às iniciais de Daniel Vorcaro. O vereador Rony Gabriel (PL-RS) afirmou que foi procurado no fim de dezembro com a promessa de remuneração milionária para “ajudar na disputa política contra o sistema”. Perfis citados, no entanto, negam que tenham aceitado pagamento.