
O ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, falou ao DCMTV sobre a crise institucional que, segundo ele, se instalou no estado a partir das decisões do governador Cláudio Castro e, principalmente, sobre o caso envolvendo o Banco Master. Garotinho afirma que a relação entre o governo, a CEDAE e o RioPrevidência expuseram o que ele chama de um “sistema” de interesses financeiros e políticos, com investimentos bilionários, decisões monocráticas e falta de fiscalização. Na entrevista, ele questiona a responsabilidade de grandes bancos na venda dos títulos do Master, critica a atuação da mídia tradicional e das cortes superiores, e sustenta que o episódio revela uma disputa de poder dentro da elite financeira que impacta diretamente a política nacional.
Crise no governo do RJ e vácuo de poder
O Rio de Janeiro viveu mais um dia, no mínimo, curioso. Em meio a toda essa crise, o governador decidiu viajar por dez dias. Não sei se você teve conhecimento, mas o governador do Rio, no meio dessa crise toda, resolveu viajar por dez dias.
Não há vice-governador, que já saiu e foi para o Tribunal de Contas. Não há presidente da Assembleia, porque o presidente da Assembleia está em prisão domiciliar, praticamente, e foi afastado da presidência. Sem outra alternativa, foi colocado o presidente do Tribunal de Justiça, que é o que manda a lei. Só que o presidente do Tribunal de Justiça também tinha viagem marcada para domingo. Ia viajar, ia, né?
Eu fiz uma postagem alertando que isso criaria um vácuo de poder, porque eles deram uma entrevista anunciando que o presidente interino da Assembleia iria assumir, o Guilherme Delaroli. Eu disse: “Olha, a previsão tanto da Constituição Federal quanto da Constituição Estadual, no artigo 141, não fala disso, ela é omissa. Ela fala até o quarto na lista sucessória.”
Ela fala: “Saindo o governador, entra o vice. Saindo o vice, entra o presidente da Assembleia. Não podendo o presidente da Assembleia, entra o presidente do Tribunal. O presidente do Tribunal viajando, não há previsão nem na Constituição Federal, nem na Constituição Estadual.”
Eu disse: “Olha, a saída vai ser alguém ir ao Supremo Tribunal Federal e pedir a nomeação de um interventor federal para o estado não ficar sem comando.” Eles chegaram a se reunir e anunciar o Delaroli como governador por dez dias. Eu disse: “Olha, das duas, uma: ou vai acabar entrando aqui alguém nomeado como interventor federal, ou, se o Delaroli ficar, todos os atos praticados por ele durante esse período serão nulos.”
Aí foi aquela correria: corre daqui, corre dali, gente para lá, gente para cá. No final do dia, o presidente do Tribunal anunciou que estava cancelando a sua viagem. Então ele vai assumir, porque ele cancelou a viagem dele. Agora, o Cláudio Castro vai fazer essa viagem de dez dias. Não é uma viagem oficial, é uma viagem de férias? ninguém sabe, porque ele não divulgou. Eu acho que quando o governante deixa o estado, deveria dizer não só os países que ele vai visitar, porque ele anunciou que vai visitar a Itália, vai visitar a Espanha e outros países, mas também dizer quais são os negócios, se são investimentos para o estado. É um negócio muito estranho. Eu até tenho algumas opiniões a respeito dos países que ele vai visitar, mas eu não quero especular maldade.
Por exemplo, a concessionária de energia do estado, a Enel, a matriz é na Itália. Vai ter renovação de concessão muito em breve. A concessionária de gás é a espanhola, cujo contrato de concessão termina no ano que vem, e há um pedido da empresa para antecipar a renovação da concessão. É um negócio complicado. Eu acho isso muito estranho. Em plena crise, sem presidente da Assembleia, sem vice-governador, quando o Castro decide viajar, eu acho que faltou um bom conselheiro para ele
A verdadeira relação de Cláudio Castro e o Banco Master
Boa parte da imprensa fala assim: “Ah, o Cláudio Castro autorizou, através do Rio Previdência, o investimento do Banco Master de 970 milhões.” Não, 970 milhões são do Rio Previdência, da CEDAE, empresa do estado, da parte que não foi privatizada.
Ele botou, e aí não é do fundo de previdência não, é o dinheiro da empresa: 250 milhões sem autorização do conselho, apenas com a assinatura do diretor financeiro. O diretor financeiro da CEDAE, a presidência da CEDAE e os diretores são nomeados pelo governador, que envia os nomes ao conselho da empresa e o conselho aprova. Perdeu 250 milhões. Então, se você somar, dá quase 1 bilhão e mais de 1,2 bilhão: 970 milhões mais 250 milhões. Dá mais de 1 bilhão. Nesse caso do Banco Master, as pessoas não estão falando da CEDAE. O caso da CEDAE é gravíssimo, porque inclusive ela está em processo de privatização.
Uma parte da distribuição foi privatizada, mas a produção de água continua a ser do estado. O estado hoje trata a água, recebe a água e vende a água tratada para as distribuidoras, que cobram a conta no final. Eu acho assim: esse caso da CEDAE é tão ou mais grave que o do Rio Previdência. O Rio Previdência é grave, não há dúvida, o valor é maior. Mas, ali na CEDAE, foi uma decisão monocrática do diretor financeiro.
Eu sinceramente acho que precisava botar o olho. Nos últimos dias, a CEDAE tem feito coisas do arco da velha. Vou lhe dar um exemplo. Havia uma área desapropriada no bairro nobre do Rio de Janeiro, a Barra da Tijuca. Essa área foi desapropriada há mais de 30 anos para a construção de um sistema de esgotamento que acabou não indo para frente.
O proprietário foi para a Justiça, vem brigando há 30 anos e não havia solução. A CEDAE não pagava o valor que ele queria. Isso foi sendo acrescido de juros e correções. É uma área nobre. A Barra da Tijuca se valorizou. No meio do ano passado, o dono do terreno pediu uma nova avaliação e foi nomeado o avaliador público pela Justiça. Esse avaliador calculou o valor do terreno em 900 milhões de reais. A CEDAE não recorreu, perdeu o prazo para contestar e agora vai ter que pagar.
Mas que uma empresa não contesta o valor, não recorre da decisão e faz um acordo estranho, isso é estranho. O pessoal da CEDAE, os sindicalistas, tiveram comigo ontem. Foram até o meu escritório aqui no Rio, onde estou falando com você. Hoje eu não estou falando de Campos, eu estou no Rio para uma série de compromissos. O pessoal da CEDAE tinha pedido esse encontro comigo para me levar documentos sobre algumas coisas absurdas.
Licitação dos “Mariscos Dourados”
Vou te dar outro documento que eu recebi ontem. A direção da CEDAE fez uma licitação para a retirada de “mariscos dourados” na cabeceira do Rio Guandu. Dezessete milhões de reais para tirar marisco dourado. Que espetáculo, hein? Não sei o que é marisco dourado. Deve existir algum tipo de marisco. Mas 17 milhões de reais. Os funcionários da CEDAE, o pessoal do sindicato, dizem: “Isso é claramente uma fraude, porque a CEDAE tem outros contratos para esse tipo de preservação da área onde fica concentrada a água, a estação do Guandu, e isso sempre custou 900 mil, 1 milhão de reais. Agora são 17 milhões.”
Eles me levaram ontem também um documento de patrocínio da CEDAE a um evento promovido pelo jornal O Globo, no valor de 1 milhão de reais. Um estado que está quebrado patrocinando um evento que trata de energia renovável, que não tem nada a ver com a empresa, e ainda com o carimbo da CEDAE como patrocinadora no exterior. Quer dizer, o consumidor de água deve ficar muito feliz de saber que, na conta de água dele, está sendo embutido o patrocínio da CEDAE a um evento sobre gás no exterior.
Alerta ao Tribunal de Contas e à Polícia Federal
Eu alerto aqui o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. E, no caso do Banco Master, a Polícia Federal. A empresa aplicou 250 milhões em CDBs do Master e vai perder 100%. Vai perder tudo. Vai recuperar 250 mil de 250 milhões, nada. Vai perder tudo. E essas outras aberrações, eu não vou nem falar tudo. É tanta coisa inacreditável que, se não tivessem levado os extratos e as publicações, até eu mesmo, que estou acostumado com esses absurdos na administração pública, ficaria em dúvida.
Isso tudo ficou mais sério quando houve o convencimento do vice-governador para renunciar ao cargo e ir para o Tribunal de Contas. Hoje ele é conselheiro do Tribunal de Contas. O que se falava no mundo político era que haviam dado a ele 50 milhões de motivos. Bom, quem teria conversado para dar esses conselhos teria sido o Ricardo Matos. Além disso, ficou acertado dar duas diretorias da CEDAE. Agora o cara vai fiscalizar a empresa que está fazendo esses absurdos, porque ele é conselheiro, está sentado na cadeira e vai fiscalizar a empresa do estado que está fazendo essas coisas.
Tudo isso que eu estou contando a você em primeira mão foi ontem à tarde. Eu recebi o pessoal do sindicato ontem à tarde. Eu fiquei apavorado, porque eles levaram extratos de aplicação, cópias desses contratos todos, dessas dispensas de licitação.
Denúncia sobre o FUNDEB
Todos os estados brasileiros tinham que, com o novo FUNDEB, fazer uma lei estadual adaptando o estado e informando quanto o estado iria aportar no novo FUNDEB. Todos os estados do Brasil fizeram. O estado do Rio de Janeiro esqueceu, não fez. O Ministério da Educação mandou avisar a secretária. Segundo informações, a lei estava na Assembleia, mas, como estava havendo uma discussão entre o governador e o presidente da Assembleia, esqueceram de votar. Resultado: os 92 municípios do estado vão perder 117 milhões de reais este ano. Se não for feito um trabalho rapidamente para corrigir a lei, aprovar e informar os critérios de valorização da aprendizagem dos alunos, os municípios não receberão esse recurso, apenas o que recebiam anteriormente, com prejuízo de 117 milhões de reais.
A estrutura do “sistema” no caso Master
As pessoas ouvem falar assim: “Fulano é contra o sistema, o sistema persegue fulano”, mas não conseguem entender o que é o sistema. Então eu disse: “Olha, eu vou falar só da parte de cima, que é a mais importante”. Ele é liderado pelos bilionários do país. Famílias como a família Moreira Salles, a família Setúbal, a família Brandão, dona do Bradesco, a família Safra, do Banco Safra, os ricaços do país que, coincidentemente, estão quase todos ligados ao sistema financeiro. Eles ganharam tanto dinheiro no sistema financeiro que agora investem em outros setores também. Esse grupo, que eu chamo de elite brasileira, é a cabeça do sistema.
Esse sistema precisa se proteger. Ele tem seus guarda-costas, aqueles que impedem qualquer ameaça direta a ele. Quem são? As cortes superiores. Você vê que as cortes superiores são altamente bem tratadas por essa elite. Patrocinam eventos no exterior, patrocinam tudo. Quando as cortes superiores têm que julgar algo, o sistema opina.
Houve aquele julgamento em que o povo brasileiro tinha direito à diferença dos planos econômicos, onde o povo perdeu dinheiro claramente. O sistema disse: “Olha, nós não temos dinheiro. O dinheiro ficou nos bancos, mas nós não temos dinheiro”. Mesmo com todos os pareceres técnicos dizendo que o dinheiro tinha que ser devolvido ao povo, o Supremo Tribunal Federal não devolveu. Então, na minha visão, eles são os guarda-costas do sistema. O sistema também se protege através dos seus legisladores, a Câmara e o Senado.
Normalmente, o que eu chamo de legisladores do sistema são cooptados ou patrocinados. Eles conseguem atingir algo em torno de 315, 320 deputados, para ter controle, e algo entre 40 e 50 senadores, cada um influenciado por um grupo, para não ficar uma coisa muito descarada.
Eu não estou defendendo o Vorcaro. Eu conheço a história dele de antes disso. Algumas ligações que ele tem no mundo econômico já passaram pelo Rio de Janeiro. Ele não está sozinho. Em qualquer trambicagem, ninguém faz sozinho. Se é contra o estado, precisa de cobertura do governador. Se é contra uma empresa, precisa do dono ou de quem fiscaliza. A pergunta é: onde estava a CVM, que tem o papel de fiscalizar fundos? O Banco Central fiscaliza banco. A Comissão de Valores Mobiliários fiscaliza fundos. Onde estava a CVM esse tempo todo? No mínimo, há cúmplices. No mínimo.
Caso Master é “Bode na Sala”
Por isso eu digo: o caso Master pode ser o bode na sala. Pode ser algo para forçar o Lula a voltar para o centro. Estamos na véspera de uma eleição. O sistema já escolheu seus candidatos. O candidato do sistema pela direita não é o Flávio Bolsonaro. É o Tarcísio. Bolsonaro impôs o filho, e a rebelião já começou. Do outro lado, o candidato do sistema é Geraldo Alckmin. O sistema não quer Lula.
O sistema viu Lula colocar no Planalto pessoas que, na visão deles, são perigosas para o rompimento do sistema. Quem vocaliza isso há muito tempo é o Zé Dirceu, que foi o pensador da famosa “Carta aos Brasileiros”, quando Lula assumiu o compromisso de manter os fundamentos da política econômica do Fernando Henrique: câmbio flutuante, superávit primário e pagamento da dívida. O Brasil vem com esses fundamentos há muito tempo.
Por que estamos vivendo uma crise quase inédita no Brasil? Porque há uma briga dentro do sistema por causa do caso Master. A cabeça do sistema quer botar para fora o Banco Master. Conhece o Vorcaro e sabe que ele é um “171 confessional”. Foi tolerado durante muito tempo por seus acordos políticos. Agora, a cabeça do sistema quer aproveitar mais uma besteira dele, que desta vez é grande, embora ele já tenha feito coisas piores, para botá-lo para fora.
Mídia Tradicional como porta-voz
O sistema precisa de um porta-voz que faça ecoar a sua voz e proteja os seus aliados. Quem é esse porta-voz? A mídia tradicional. Se você reparar, tudo o que é dito por um comentarista raramente tem outro comentarista para discordar. Eles vão em cima do Boletim Focus e repetem tudo igualzinho. É como se fosse a voz do sistema.
Eles falam para um público que não é o cidadão comum preocupado com o salário. Quem se preocupa com se o dólar vai subir ou cair, por que o ouro está subindo, por que a prata está subindo, é um tipo de empresário ou profissional liberal que tem dinheiro para investir. Então, se a Míriam Leitão fala uma coisa, o comentarista da CNN, do Jornal Nacional ou da Jovem Pan fala a mesma coisa. Eles repetem. Eles são, na minha visão, a voz do sistema.
Malu Gaspar é a voz do sistema
Eu sou a favor do sigilo de fontes. O jornalista tem que ouvir várias fontes e dar contraponto. O jornalista deve equilibrar fontes para que o cidadão possa fazer sua análise independente, sem ficar preso a uma bolha. No caso da Malu Gaspar, eu acho que ela é uma boa jornalista, experiente, mas ali ela está servindo à voz do sistema, ao patrão que paga seus vencimentos. Ela deveria, no meu ponto de vista, equilibrar mais as opiniões. Ficou tendencioso para um lado, e isso prejudica a credibilidade.
André Esteves e vazamentos
Só duas pessoas poderiam ter vazado aquela imagem do Toffoli recebendo o André Esteves no sítio: ou o próprio Toffoli, ou o próprio André. Quem vazou o salário do Guido Mantega no Banco Master? Quem vazou os vídeos, os contratos que foram auditados pelo BTG? Antes de tentar vender o Master para o BRB, o banco foi auditado pelo BTG. O André sabia de tudo. Ele tentou comprar o banco por um real, assumindo as dívidas e trocando a direção. Para mim, está claro que a fonte dos vazamentos é o André. BTG, XP e Nubank foram os maiores vendedores dos títulos do Master. Ele quer salvar a própria pele e a do grupo dele. Quem mais, além de quem auditou o banco, teria essas informações internas?
Burocratas e a camada intermediária
Há ainda uma camada intermediária, que eu chamo de burocratas. São aqueles que ganham acima do teto. Para eles, não importa quem está no governo, se é de direita ou de esquerda. Eles querem garantir seus privilégios. São aqueles que ganham 100 mil, 80 mil, 70 mil por mês. Eles não querem saber de ideologia. Querem um governo que mantenha os privilégios. Assim, na minha visão, funciona o sistema.
Responsabilidade dos grandes bancos
A parte de cima do sistema quer tirar o Vorcaro. Os políticos querem manter. A mídia, que obedece à cabeça do sistema, vocaliza a opinião da cabeça. Então a mídia vai bater, vai bater, vai bater, porque ela também tem interesses prejudicados.
Vamos explicar uma coisa: quem vendeu 90% dos CDBs do Banco Master? Não foi só o Master. Foram a XP, o BTG e o Nubank. Eles ganharam 4% de comissão para colocar esses papéis na praça. Você anda no banco e o gerente te oferece um papel que está pagando muito bem, com rendimento alto.
O Vorcaro diz: “Eu tenho culpa, meu papel é podre. Mas quem vendeu o meu papel não sabia que era podre. Só eu vou para a vala”. Esses outros bancos também têm responsabilidade. O André Esteves, do BTG, vendeu algo entre 20% e 30% desses papéis. Quem mais vendeu foi a XP. A XP tem suas ligações com o Itaú. O Nubank tem suas ligações com a Globo. A pergunta é: eles não sabiam? Ninguém viu isso? Eu não estou defendendo o Vorcaro. Ele fez sujeira e não é novidade. Ele não é bem-quisto pela cabeça do sistema há muito tempo.
Santander e Lucros no Brasil
O Brasil pagou mais de um trilhão e cem bilhões de reais em juros no ano passado para meia dúzia de pessoas. Noventa por cento dos títulos da dívida estão nas mãos de bancos, fundos de investimento e bancos estrangeiros. Quem ganha com isso são os grandes do sistema financeiro. O maior lucro do Santander no mundo é no Brasil. O Santander não é um banco brasileiro. Ele ganha aqui porque não ganha no país dele. Você vai olhar o resultado e vê que a explosão de lucro vem de aplicações em títulos públicos federais.

Galípolo tomou as decisões corretas
Faltou coragem a vários presidentes do Banco Central. O atual presidente tomou a atitude que tinha que tomar, mas isso não é só contra o Vorcaro.
Até agora eu bato palma para o Galípolo. Mas eu quero saber se ele vai dizer: “Quem vendeu os títulos é tão responsável quanto quem emitiu”. Porque não dá para oferecer a um investidor um produto com uma taxa completamente fora do mercado e dizer que não sabia que era podre. Os bancos de maior credibilidade, que emprestaram a vitrine para esses papéis, têm responsabilidade ainda maior, porque venderam credibilidade junto com os títulos.
Porque, veja: você chega para mim e diz: “Quer comprar um papel que eu estou vendendo?”. Eu confio em você porque você trabalha no BTG, um banco sério. Você me oferece um papel podre, eu compro. Você ganhou 4%. Vamos calcular: 4% de cerca de 40 bilhões de reais em CDBs vendidos dá aproximadamente 1,3 bilhão de reais em comissões. É muito dinheiro. Esses bancos ganharam dinheiro em cima da desgraça dos clientes, que agora se perguntam: quem vai me pagar? O banco que eu comprei ou o banco que emitiu o título? Ninguém fala do BTG, ninguém fala da XP, ninguém fala do Nubank. Todo mundo só fala do Master. Isso não foi feito sozinho. Esses papéis podres não foram comprados no máximo, foram oferecidos por esses três bancos. Eles têm responsabilidade. Isso é o sistema funcionando.
Ricardo Lewandowski e a investigação do Banco Master
Tenho profunda admiração pelo ministro Ricardo Lewandowski. Quando eu era deputado federal, presidi uma comissão na Câmara para discutir uma reforma eleitoral. Ele era presidente do TSE, e nós conversamos várias vezes. Uma vez eu perguntei: “Ministro, por que existe Justiça Eleitoral só no Brasil?” Ele respondeu: “Isso é uma jabuticaba. Só existe aqui, mas funciona”.
Eu disse que ele sempre me pareceu uma pessoa séria e dedicada. Mas, sinceramente, eu não entendi a posição dele nesse caso específico do Banco Master. Quando ele saiu do Supremo, disse que não iria para governo nenhum, que queria cuidar da vida profissional. Tinha todo o direito. Mas eu me lembro que ele quase foi forçado pelo Lula a ir para o governo.
Nesse período entre sair do Supremo e entrar no governo, ele estabeleceu contratos. Quando saiu, deixou o filho tomando conta do escritório. Eu não sei exatamente o que aconteceu nesse caso específico. Eu não quero fazer julgamento pessoal. Pelo menos, enquanto ministro da Justiça, eu não vi interferência dele.
Eu acho que o pedido de saída dele do governo não foi apresentado como “estou cansado”. Eu acho que ele já sabia dessa situação e disse: “Vou pedir para sair para não criar um constrangimento”. Imagine se ele estivesse no Ministério da Justiça na hora em que esse problema estourasse.
A autonomia da Polícia Federal
Mas vamos reconhecer uma coisa: a Polícia Federal, hoje, com o atual diretor-geral, não sofre interferência de ninguém. Ela não está livrando a cara de ninguém. Eu acho complicado imaginar um ministro ligando para dizer “não faça isso” ou “não faça aquilo”. Se há um órgão hoje que a população respeita profundamente, é a independência da Polícia Federal. Isso é mérito do governo. Não há interferência nem do presidente, nem do ministro. A Polícia Federal cumpre o papel de polícia de Estado, não de governo.
Ela não tem que servir ao governo de plantão, nem a este, nem ao próximo. Ela tem que servir ao Estado brasileiro e combater a corrupção, seja na direita, na esquerda, no banco, no boteco, no PCC, no Comando Vermelho. Pode haver casos pontuais, um delegado envolvido, um erro aqui, outro ali. Mas isso não pode servir para julgar toda a corporação.
Comparação com o impeachment de Dilma
Aquela questão da pedalada fiscal, pelo amor de Deus, todos os presidentes fizeram, inclusive depois. O Fernando Henrique fez, o Lula fez, o Bolsonaro fez. Aquilo não era exatamente pedalada, era contabilidade criativa. Economistas diziam que não era motivo para cassação. Qual era a crise real? A Lava Jato. Lembra do telefonema dizendo “temos que tirar essa mulher daí, com Supremo, com tudo”? Havia algo mais profundo do que a pedalada.
Candidatura e futuro político
Perguntaram se eu seria candidato a governador do Rio. Eu disse que não sei ainda se vou me candidatar a algum cargo. Vou decidir com a minha família depois do carnaval. Eu posso contribuir para o país com jornalismo independente e com as opiniões que eu dou. Eu não preciso de mandato para isso. Mais gente assiste às minhas falas, aos meus podcasts e entrevistas do que se eu estivesse falando na tribuna da Câmara ou do Senado, que ninguém ouve.
O sistema no Rio brigou comigo. Eu processei o ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio. A Justiça não gosta muito de mim. Eu botei na cadeia um ex-chefe do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Cláudio Lopes, que foi preso na operação do Sérgio Cabral. A denúncia foi minha. Eu denunciei os maiores esquemas do transporte, a “caixinha” de ônibus. Eu até posso ganhar uma eleição. Mas e depois? Eu sou o homem que criou a expressão “polícia podre”. Hoje eu tenho que andar com segurança até para ir ao banheiro. Eu tenho 13 netos, tenho esposa, tenho amigos. Eu não quero expor minha família.