Caso Orelha: polícia aponta três adultos por coação após agressão de adolescentes

Atualizado em 26 de janeiro de 2026 às 17:44
O cão comunitário Orelha. Foto: Divulgação

A Polícia Civil de Santa Catarina identificou três adultos suspeitos de envolvimento em ações de coação durante o processo que investiga a morte do cão comunitário Orelha, agredido na Praia Brava, área nobre de Florianópolis. Os investigados são familiares dos quatro adolescentes apontados como autores dos atos infracionais de maus-tratos contra o animal. Os nomes não foram divulgados.

Na manhã desta segunda-feira (26), uma operação cumpriu três mandados de busca e apreensão nas residências dos adultos suspeitos e também nos endereços de seus responsáveis legais. A apuração busca esclarecer tentativas de interferência na investigação, especialmente por meio de ameaças a testemunhas.

O crime investigado é o de coação no curso do processo, previsto no artigo 344 do Código Penal, que define como ilegal “usar de violência ou grave ameaça, com o fim de favorecer interesse próprio ou alheio, contra autoridade, parte, ou qualquer outra pessoa que funciona ou é chamada a intervir em processo judicial, policial ou administrativo, ou em juízo arbitral”.

Entre os pontos apurados está a denúncia de que um policial civil, pai de um dos adolescentes suspeitos, teria coagido uma testemunha. A delegada responsável pelo caso, Mardjoli Valcareggi, afirmou que a informação está sendo analisada, mas negou participação de policial nas agressões ao animal.

“O mandado contra o adulto buscava localizar uma arma supostamente usada para ameaçar uma testemunha. No entanto, não encontramos essa arma, apenas certa quantidade de drogas. Há indícios de que quatro adolescentes tenham praticado as agressões contra o cão, e três adultos estariam envolvidos na coação durante o processo”, afirmou o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel.

Segundo a corporação, os quatro adolescentes são os principais suspeitos das agressões contra Orelha, um cão comunitário com cerca de 10 anos. Dois deles estão em Florianópolis e foram alvos da operação. Os outros dois estão nos Estados Unidos em uma “viagem pré-programada”, conforme informou o delegado-geral.

O cão comunitário Orelha. Foto: Divulgação

Durante a ação, aparelhos celulares e outros dispositivos eletrônicos foram apreendidos e serão analisados. Testemunhas começaram a ser ouvidas ainda nesta segunda-feira. O Ministério Público de Santa Catarina acompanha o andamento das investigações.

O caso veio à tona em 16 de janeiro, após moradores relatarem o desaparecimento do animal. Dias depois, uma das pessoas que cuidavam de Orelha o encontrou caído e agonizando durante uma caminhada. O cão foi levado a uma clínica veterinária, mas, diante da gravidade dos ferimentos, foi submetido à eutanásia.

Em entrevista, o empresário e morador da região Silvio Gasperin descreveu o momento em que o animal foi localizado. “A Fátima ficou sabendo, mas não encontrou ele de imediato. Em uma caminhada, achou ele jogado e agonizando. Recolheu, levou ao veterinário… precisa de justiça, né?”, disse.

Orelha era um dos cães comunitários da Praia Brava, que conta com casinhas destinadas aos animais que se tornaram mascotes do bairro. O aposentado Mário Rogério Prestes relatou que cuidava da alimentação diária dos cães. “Muita gente vinha trazer comida para eles, mas eu era o responsável por alimentá-los todos os dias. Eles não podiam ficar sem comida e sem cuidado”, afirmou.

A empresária Antônia Souza, que passeava com sua cadela Cristal pela região, destacou a convivência do animal com os moradores. “Eles conviviam com a gente. Eles tinham uma vida na Praia Brava. Todo mundo que mora aqui, ou vem com frequência, sabe de quem estamos falando: os ‘pretinhos’”, disse.

Em nota, a Associação de Moradores da Praia Brava ressaltou o vínculo afetivo da comunidade com o animal. “Orelha fazia parte do cotidiano do bairro há muitos anos e era cuidado espontaneamente pela comunidade, tornando-se um símbolo simples, porém muito querido, da convivência e da relação de cuidado que muitos mantêm com o espaço e com os animais que aqui vivem.”

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 27 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.