CBS cede à pressão do governo Trump e barra entrevista com candidato democrata

Atualizado em 18 de fevereiro de 2026 às 7:42
Estúdios da CBS. Foto: reprodução

Stephen Colbert gravou no “Late Show” uma entrevista com James Talarico, candidato nas prévias democratas ao Senado pelo Texas. Segundo o apresentador, advogados da CBS intervieram antes que o conteúdo fosse exibido na TV aberta.

“Fomos informados, de maneira inequívoca, pelos advogados da nossa emissora, que nos ligaram diretamente, de que não poderíamos colocá-lo na transmissão”, afirmou Colbert ao público na segunda-feira.

Na terça-feira à tarde, a CBS apresentou outra versão. Em nota, declarou que o programa recebeu “orientação jurídica”, mas não foi “proibido” de exibir a entrevista.

Pressão política e regra do “tempo igual”

A polêmica ocorre em meio ao aumento da pressão do governo Donald Trump sobre emissoras de TV aberta. A CBS enfrenta um momento sensível por causa dos planos da sua controladora, a Paramount, que tenta adquirir a Warner Bros. Discovery, incluindo a CNN.

A Comissão Federal de Comunicações (FCC), responsável por regular emissoras locais, divulgou recentemente novas orientações sobre uma antiga norma conhecida como regra do “tempo igual”. A regra exige que estações concedam espaço equivalente a todos os candidatos oficialmente qualificados para um cargo público: se um é destacado, os adversários também devem receber tempo semelhante.

A norma não se aplica à TV por assinatura nem ao streaming — por isso a entrevista foi publicada no YouTube como conteúdo exclusivo online —, mas vale para emissoras locais de TV e rádio.

Durante cerca de duas décadas, consolidou-se o entendimento de que programas de entrevistas noturnos e diurnos estavam abrangidos por uma exceção destinada a conteúdos jornalísticos. O presidente da FCC, Brendan Carr, rejeita essa interpretação. No mês passado, declarou que emissoras não deveriam presumir que atrações como a de Colbert estão automaticamente isentas.

James Talarico. Foto: Ronaldo Bolaños/The Texas Tribune

Ameaças e reação interna

Carr é aliado declarado de Trump e já criticou programas considerados liberais, como “The View”, da ABC. Apesar disso, o alcance prático das medidas da FCC é limitado. A única comissária democrata do órgão, Anna Gomez, afirmou que nenhuma nova regra foi formalmente adotada e classificou as declarações de Carr como enganosas.

Uma fonte da própria FCC disse à CNN que “a ameaça é o objetivo”, sugerindo que a intenção seria levar emissoras a rever decisões por precaução.

A CBS indicou que levou as orientações a sério. Informou que o programa recebeu orientação jurídica de que a transmissão poderia acionar a regra para outros dois candidatos, incluindo a deputada Jasmine Crockett, e que foram apresentadas alternativas para cumprir eventual exigência de tempo igual.

Segundo a emissora, o “Late Show” optou por publicar a entrevista no YouTube e promovê-la no ar, em vez de lidar com possíveis demandas relacionadas à regra.

Colbert afirmou que não foi avisado sobre a nota divulgada pela empresa. Disse que a CBS determinou unilateralmente que ele deveria cumprir a regra do tempo igual, algo que jamais lhe foi exigido em 21 anos de programa.

Ele descreveu o comunicado como “um pedaço de papel surpreendentemente pequeno, considerando quantos traseiros está tentando proteger” e acrescentou que o texto foi “claramente escrito por — e, imagino, para — advogados”. Também reforçou que cada palavra de seu roteiro havia sido previamente aprovada pelos advogados da emissora.

Investigação e acusações de intimidação

Duas semanas antes, após Talarico participar do “The View”, a agência Reuters informou que a FCC abriria investigação por possível violação da regra do tempo igual. Anna Gomez chamou o procedimento de “farsa” e previu que não haveria desdobramentos relevantes, classificando a iniciativa como exemplo de “intimidação governamental”.

Na terça-feira, Gomez criticou a decisão da CBS: afirmou que a emissora tem plena proteção da Primeira Emenda para escolher quais entrevistas exibir e que interesses corporativos não justificam recuo diante de pressão política.

Colbert foi ainda mais direto. “Vamos chamar isso pelo que é”, disse. “O governo Donald Trump quer silenciar qualquer pessoa que diga algo negativo sobre Trump na televisão. Porque tudo o que Trump faz é assistir TV.” Em seguida, dirigiu-se a Carr: “O senhor é presidente da FCC, então… dane-se a FCC.”

Talarico transforma polêmica em impulso eleitoral

Na entrevista, Talarico criticou a conduta da FCC sem mencionar o órgão nominalmente. Disse que republicanos fizeram campanha contra a chamada “cultura do cancelamento”, mas agora tentam controlar “o que assistimos, o que dizemos, o que lemos”, classificando isso como a forma mais perigosa desse tipo de prática.

Ele também mencionou episódios envolvendo “The View” e o apresentador Jimmy Kimmel, além de críticas à Paramount por acordo anterior com Trump.

No ano passado, antigos controladores da Paramount pagaram US$ 16 milhões para encerrar um processo movido por Trump relacionado a uma reportagem do “60 Minutes”. O valor foi destinado à futura biblioteca presidencial de Trump, em acordo semelhante ao firmado anteriormente entre a Disney, dona da ABC, e o ex-presidente. Críticos apontaram o acerto como tentativa de facilitar aprovação regulatória para uma megafusão no setor de mídia. A FCC liberou o avanço da operação semanas depois, embora Carr tenha negado conexão entre os fatos.

Carr não respondeu aos pedidos de comentário sobre as críticas feitas por Colbert no ar.

Talarico, por sua vez, usou o episódio como trunfo na campanha às vésperas da primária de 3 de março. “Esta é a entrevista que Donald Trump não queria que você visse”, escreveu na rede X ao compartilhar trecho do vídeo. “A FCC dele se recusou a exibir minha entrevista com Stephen Colbert”, acrescentou, dizendo que Trump estaria preocupado com a possibilidade de os democratas virarem o Texas.

A entrevista ultrapassou 2 milhões de visualizações no YouTube, além de milhões de reproduções adicionais em outras plataformas sociais.