Cebrap aponta mais de 700 mortos por violência política no Brasil em 20 anos

Atualizado em 7 de fevereiro de 2026 às 8:53
Grupos fazem protesto pela morte de Marielle Franco em 2018. Foto: Fábio Teixeira / Agência O Globo

O Brasil registrou mais de 700 mortos em episódios de violência política ao longo de 20 anos, segundo um estudo da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Entre o início de 2003 e 2023, foram 1.228 vítimas de violência política letal ou grave, incluindo assassinatos, tentativas de assassinato e ameaças severas de morte.

Do total de vítimas analisadas, 760 foram assassinadas, 358 sofreram tentativas de homicídio e 110 receberam ameaças graves. “Isso significa uma média anual de 61,4 casos, ou cerca de 5,1 por mês, um número extraordinariamente alto para uma democracia estabelecida”, aponta o levantamento.

O estudo considerou políticos — no exercício do mandato, candidatos ou pessoas que deixaram o cargo até cinco anos antes do crime — e também ativistas.

A pesquisa foi coordenada por Angela Alonso, professora da USP, com base em notícias do portal G1 (2010–2023) e do jornal O Globo (2003–2013). A coleta combinou programação e raspadores de notícias, com mais de 100 mil registros inicialmente identificados e posteriormente filtrados.

Os pesquisadores alertam que, embora os padrões sejam consistentes com outros estudos, o total pode estar sub-representado, o que torna o cenário ainda mais preocupante.

Política local concentra a violência

A maioria dos ataques (63%) teve como alvo políticos, contrariando a percepção de que ativistas seriam os mais vulneráveis. Pessoas sem cargo ou candidatura concentraram 60% dos casos, seguidas por detentores de mandato (31%) e candidatos (8%).

Entre políticos, 88% das ocorrências se deram no nível municipal, indicando que a política local é particularmente violenta no país.

Estados mais afetados e motivações

Em termos proporcionais, os estados com mais crimes contra políticos foram Alagoas (20,1 casos por 1 milhão de eleitores), Acre (16,2), Rio de Janeiro (11,4) e Mato Grosso (11,1).

Segundo os pesquisadores, disputas por recursos e contratos municipais explicam parte do quadro em Alagoas, enquanto, no Rio, pesa a atuação de milícias e do crime organizado. No conjunto, 47% da violência contra políticos decorreu de disputas por cargos, poder e recursos públicos.

Ativistas e conflitos fundiários

Entre ativistas, as mortes se concentraram em áreas rurais ou florestais (72%), especialmente em conflitos por terra (72%). Roraima (30,7) e Mato Grosso do Sul (19,8) lideram as taxas, associadas a disputas territoriais, inclusive envolvendo o território yanomami.

“[Além dos conflitos internos entre os yanomamis], também existem os casos em que eles são mortos por não indígenas. São conflitos fundiários ou por recursos naturais e conflitos de facções”, explica Alonso.

Comunidade indígena na Terra Yanomami. — Foto: Bruno Mancinelle/Casa de Governo
Comunidade indígena na Terra Yanomami. Foto: Bruno Mancinelle/Casa de Governo

Perfil dos crimes e evolução no tempo

Dos assassinatos, 88% foram cometidos com arma de fogo, seguidos por arma branca (6%). Para os autores do estudo, a predominância de execuções à distância indica planejamento profissional: “Os assassinatos políticos geralmente são planejados sistematicamente e executados profissionalmente. Dois fatores ajudam a explicar esse padrão: a disponibilidade e a normalização das armas de fogo e um mercado estabelecido para assassinos de aluguel”.

As mortes atingiram níveis mais baixos nos governos Lula 1 (média de 21,5 por ano) e Lula 2 (15,8), cresceram no fim do governo Dilma Rousseff 2, antes do impeachment, e permaneceram elevadas nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, apesar da queda associada à pandemia.

Para Alonso, a escalada após Dilma se relaciona à crise política e à intensificação de um discurso armamentista: “Isso significa a sociedade resolver os seus conflitos à bala também”.