Celso Amorim e a crise na Venezuela: “Ainda há espaço para o diálogo”. Por Pedro Zambarda

Celso Amorim (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

 

Aos 76 anos de idade, Celso Luiz Nunes Amorim é um dos brasileiros que mais conhecem o mundo. Melhor: os bastidores deste mundo e de sua forma de se organizar (ou se desorganizar, dependendo do período). Serviu a diferentes governos e ajudou na construção de uma diplomacia respeitada internacionalmente.

Hoje, já aposentado, mas ainda atuante, não tem nenhuma participação nos assuntos oficiais do Ministério das Relações Exteriores, o que é uma perda para o país. Mas não deixa de dizer o que pensa, sempre, claro, na linguagem e na prudência que caraterizam os bons diplomatas.

Diário do Centro do Mundo: Como o senhor avalia a participação de Jair Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial em Davos?

Celso Amorim:  O que dizer sobre um discurso de menos de oito minutos?

DCM: Como vê a crise na Venezuela e o posicionamento do Brasil? 

CA: Sou muito crítico ao posicionamento do Brasil, pra mim o Brasil deveria ser independente para liderar o processo e não ser submisso aos interesses norte-americanos. Sem entrar no mérito do governo Maduro, não vou julgar isso, nosso governo deveria trabalhar pela paz e pelo diálogo, sempre na base da não-intervenção.

Com isso, acho que poderíamos fazer, como de fato fizemos no governo do presidente Lula, o pacto dos “Amigos da Venezuela” fazendo com que Chávez se convencesse a fazer parte. Os Estados Unidos fizeram parte do grupo e na época isso era possível. Na época, o Hugo Chávez permitiu inclusive observadores internacionais da OEA, coisa que hoje não está mais no campo das possibilidades.

Fui embaixador na época do governo FHC e vi as tentativas de tirar Chávez do poder para mudar o regime. Vi no que isso dá. São consequências trágicas que contrariam a tradição diplomática do Brasil. Deveríamos fazer como secretário-geral da ONU está fazendo, ao começar um apelo por diálogo. Seria um caminho melhor.

Oferecer apoio político e econômico para a Venezuela colocaria a oposição numa situação muito mais difícil. E pensando no Brasil, temos uma questão imediata que são a proteção das nossas fronteiras. Não queremos conflito aberto e nem guerra civil.

DCM: Há ainda caminho pra diálogo na crise venezuelana?

CA: Sempre há caminho para diálogo. Sempre há caminho para diálogo, sendo mais ou menos difícil esse processo. A Guerra do Vietnã não acabou quando resolveram conversar? Demorou, mas acabou. Sempre há um caminho para o diálogo e para a diplomacia. Os outros caminhos são da aventura e das preferências ideológicas.

O caminho do Brasil até então tinha sido muito pragmático, com diálogo e visando evitar um conflito na nossa fronteira. Conseguimos com apoio dos Estados Unidos, veja só. Naquele momento o Brasil ia na frente e os EUA acompanhavam nesse caso. Agora é o contrário.

DCM: Mudou a direção do relacionamento.

CA: Exatamente.

DCM: Como o senhor está vendo essa situação no governo Bolsonaro? É triste ver o desmonte de muitas das políticas exteriores que o senhor iniciou?

CA: Não fico triste pelas políticas iniciadas na minha época, mas por muitas que foram iniciadas antes. Fui embaixador do Fernando Henrique e ministro do Itamar. Eu presenciei muitas coisas também no governo Sarney, embora não fosse embaixador. Muitas coisas foram construídas.

A integração sul-americana, com entendimento diante da Argentina, era de alto nível e voltada para a paz. Isso resultou na criação do Mercosul no governo Collor. Depois isso evoluiu e criamos a Unasul. Ela foi muito útil para evitar conflitos, como foi o caso da Colômbia e Venezuela, para contribuir na busca de uma solução da crise interna da Bolívia, que resultou na consolidação do Evo Morales. Tudo isso foi uma série de avanços que hoje retrocedem com esse realinhamento aos Estados Unidos.

Aprecio que o vice presidente general Hamilton Mourão, agora presidente em exercício, diga que o Brasil não vai intervir. Intervenção vai acarretar problemas e os Estados Unidos, neste momento, dizem que todas as opções estão na mesa. Isso significa que uma intervenção não está descartada.

Quando você diz que todas as opções estão disponíveis, você não descarta o uso da força direta ou indiretamente. Isso tudo pela mudança de regime. Esse tipo de atitude dos americanos não é uma tradição do Brasil.

Não precisa escutar apenas a mim. Pode escutar o embaixador Rubens Ricupero que escreveu no Valor Econômico sobre essa tradição. Ele afirma o mesmo. Não contraria apenas políticas do governo Lula, mas de décadas de diplomacia.

DCM: Em que o senhor tem trabalhado?

CA: Tenho pensado.

DCM: Escreve e lê muito?

CA: Escrevo às vezes pra Carta Capital, além de outros artigos. Dou algumas palestras. E converso com jornalistas curiosos.

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Contexto

O presidente Nicolás Maduro disse que não deixará o governo, após o líder opositor e presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se declarar presidente interino da Venezuela. Maduro denunciou uma tentativa de golpe com atores internacionais e rompeu relações com os Estados Unidos.

EUA, Argentina, Colômbia, Paraguai, Canadá, Chile, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá, Peru, Reino Unido, OEA e o Brasil de Bolsonaro reconhecem Guaidó como novo presidente da Venezuela. Rússia, Cuba, México, Bolívia, Nicarágua, Turquia, China e Irã permanecem do lado de Maduro.

A ONU defende uma saída pelo diálogo. Uruguai e México se ofereceram para ser mediadores de um acordo,  o que evitaria uma guerra ou uma intervenção externa na Venezuela.

Brevíssimo resumo de Celso Amorim

Foi ministro das Relações Exteriores nos governos de Itamar Franco e Lula, além de ter sido embaixador brasileiro em diferentes países e missões durante a gestão Fernando Henrique Cardoso. No primeiro governo Dilma, atuou no Ministério da Defesa.

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