
Mensagens vazadas de um celular funcional da Delegacia da Polícia Civil em Sorriso (MT) sugerem práticas graves, como abuso sexual contra detentas e tortura de investigados. Os diálogos circularam em um grupo de WhatsApp chamado “DHPP/Assuntos Oficiais”, referência à Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
A corporação afirma que o aparelho de onde partiram os vazamentos havia sido furtado em outubro do ano passado. O g1 teve acesso a mensagens e áudios do grupo. Em um print datado de 6 de novembro, um dos participantes comenta sobre uma detenta: “uma escaldada nessa piranha, rapaz, pode comer”, seguido de risadas. Em resposta, uma mulher no grupo escreve: “Que isso”.
As mensagens levantaram suspeitas de violência sexual e outras ilegalidades praticadas por agentes públicos. À época da divulgação, o delegado titular da unidade, Bruno França, afirmou que trechos das conversas teriam sido apagados ou editados com o objetivo de prejudicar o trabalho da Polícia Civil.
No mesmo período do vazamento, uma mulher que estava presa na delegacia relatou ao advogado ter sido estuprada por um investigador da unidade. O policial foi indiciado por estupro e abuso de autoridade nesta sexta (6).

Em nota, a Polícia Civil afirmou que irá apurar a autenticidade das mensagens e o contexto das conversas, além de eventual desvio de conduta. “As mensagens de conversa que constam no aparelho celular, se verdadeiras, não têm nenhuma relação com o caso de estupro de uma mulher que aconteceu no mês de dezembro de 2025”, declarou a instituição.
As mensagens também mencionam expressões que, segundo fontes ouvidas sob reserva, indicariam outras práticas ilegais, como forjar flagrantes, instalar aplicativos espiões em celulares de investigados e reutilizar armas em supostos confrontos.
Um dos trechos cita que agressões físicas deveriam ocorrer apenas após o retorno de um médico legista de férias, para evitar registro de lesões.
Denúncias anteriores reforçam o histórico de suspeitas na mesma delegacia. Em janeiro de 2024, uma jovem denunciou ao Ministério Público ter sido agredida e ameaçada de abuso sexual por policiais durante uma abordagem.
O caso foi formalizado, mas segue sem avanço. A OAB-MT informou que encaminhou pedido de providências à Corregedoria, enquanto o Ministério Público disse não ter recebido denúncia formal até o momento.