
A proibição do uso de redes sociais pelo padre Júlio Lancellotti, imposta em dezembro de 2025 pela Arquidiocese de São Paulo, provocou queda nas doações destinadas às ações da Pastoral de Rua, que atende pessoas em situação de rua na capital paulista. Voluntários relatam redução superior a 20% na arrecadação em menos de 2 meses, afetando diretamente o funcionamento do Centro Comunitário Santa Dulce dos Pobres, ligado à Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca.
“A gente sempre recebeu muita coisa de higiene pessoal, absorvente, fralda. Depois da interrupção dele [padre Júlio] nas redes sociais, a gente não recebe mais. Antes vinha muito desodorante, nunca mais veio, depois que ele saiu das redes”, afirmou a voluntária Idalina Rodrigues, conhecida como Ida, à Agência Pública.
Segundo ela, o Centro atende mensalmente entre 400 e 500 pessoas e dependia da divulgação feita pelo pároco para mobilizar doações específicas quando havia escassez de itens básicos. A professora Elisa Huertas, catequista e integrante da pastoral de comunicação, explica que a paróquia conta com cerca de 300 fiéis que contribuem mensalmente, mas que esse valor não é suficiente para manter todas as atividades.
“As pessoas vêm de outros estados para conhecer a obra, o padre Júlio, ver como conseguem ajudar. Então, essa divulgação que era feita nas redes sociais, para a gente era de extrema importância”, diz.
O Centro Comunitário oferece diariamente café da manhã para cerca de 350 pessoas em situação de rua, além de serviços como orientação jurídica, psicológica e social, corte de cabelo, doação de óculos, roupas, acesso a computadores, biblioteca, telefones e apoio para emissão de documentos e busca por emprego. Com a saída do padre das redes, voluntários afirmam que a visibilidade das ações diminuiu.

A determinação partiu do arcebispo metropolitano de São Paulo, Odilo Pedro Scherer. Fiéis reuniram mais de mil assinaturas em um abaixo-assinado pedindo a revisão da decisão, mas relatam dificuldade de diálogo com a Arquidiocese.
“Tentamos contato, mandamos mensagem para Dom Odilo. Ele me respondeu que era para entregar na região episcopal de Belém. Já Dom Cícero mandou entregar na chancelaria. Deixei claro que queria conversar, e eles se recusam”, afirma Huertas.
Diante da falta de resposta, a comunidade decidiu encaminhar o abaixo-assinado ao Vaticano. A iniciativa também foi motivada por uma denúncia apresentada em novembro de 2025 pelo deputado federal Junio Amaral (PL-MG) contra o padre, levada à Embaixada da Santa Sé e a um departamento da Cúria Romana. “Eles enviaram um documento contrário ao padre Júlio, então queremos enviar nosso abaixo-assinado que é a favor”, diz Huertas.
Voluntários ressaltam que o padre segue integralmente a orientação da Arquidiocese. “Desde que houve essa proibição, o padre [a] seguiu à risca. Ele nunca mais usou [as redes sociais]”, afirma a advogada Amanda Lopes. Para ela, o impacto vai além da figura do pároco.
“Eles não estão atacando o padre Júlio, estão atacando a pessoa em situação de rua, quem vem aqui pegar um pão, tomar um banho. Isso não é sobre o padre Júlio, isso é sobre as pessoas que dependem da paróquia para ter o mínimo”, critica.