“Censura bolivariana”: a hipocrisia da TV Cultura diante do fim da “parceria” com a Rede Minas

 

Durante um período, ali pelos anos 90, a TV Cultura de São Paulo era um caso clássico de emissora elogiada por muita gente, especialmente por quem nunca assistiu seus programas. Mal comparando, mais ou menos como o “Ulisses”, de James Joyce, a obra-prima consagrada por milhões que nunca a leram.

“Programação de alto nível”, era o clichê sobre a Cultura. “Nossa BBC”. Eventualmente, aparecia um prêmio internacional de alguma instituição remota.

Décadas de aparelhamento pessedebista depois, a Cultura sumiu do radar e voltou a ser notada recentemente — pelo descalabro da cobertura enviesada e a contratação em massa de comentaristas de direita. Um deles, o historiador Marco Antonio Villa, tem surtos apopléticos inesquecíveis convocando Lula para um debate. A Cultura virou assunto novamente, como uma azeitona esquecida debaixo do sofá há muito tempo e que juntou muita formiga.

Nesta semana, um falso escândalo. A Rede Minas decidiu não mais retransmitir o Jornal da Cultura, o Pravda tucano.

Três caras da bancada ficaram supostamente surpresos com a decisão. O apresentador Willian Corrêa disse que tinha “uma notícia péssima”. Luiz Felipe Pondé, matreiro, questionou: quem boicotou? Willian devolveu que era o novo diretor, Israel do Vale. “Ele deve saber os motivos”, disse. “Parece boicote”, insistiu Pondé.

Havia mais um indignado: o cientista político Sérgio Fausto. “Será que por alguma coisa política, pelo fato de que o governo de Minas é hoje legitimamente ocupado por um político do PT?”, soltou. “A característica do ‘Jornal da Cultura’ é a pluralidade de opinião”.

Sim, pluralidade de opinião.

Pondé você já conhece, mas Sérgio Fausto talvez não. Diretor executivo do Instituto FHC, Fausto é autor de artigos reproduzidos na coluna de Augusto Nunes, o comandante do Roda Viva. Um deles, por exemplo, denunciava “inquietantes semelhanças” entre Brasil e Argentina.

Estava implícita uma crítica ao bolivarianismo do governo mineiro e a sombra da censura. Israel do Vale explicou, na Folha, que foi uma decisão “técnica”, transparente etc.

Fora tudo, por que deveria a Rede Minas ser obrigada a passar o JC? Onde está escrito que é mandatório? Qual é o enorme absurdo de abrir mão de uma atração para colocar outra em seu lugar? Se foi uma decisão política: está decretado em algum lugar que é proibido?

A encenação do JC vai além da hipocrisia sobre a própria imparcialidade. É preciso causar também a estranheza de que algo superior não foi reconhecido pelos índios. A verdade em geral é mais simples: não faz falta, tchau. Sem contar que ninguém — nem os mineiros — merece um tio careca de conga e camiseta de skatista falando em golpe comunista às 9 da noite.

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