Centrão vai blindar gabinete do ódio? Por Helena Chagas

Jair Bolsonaro e Silvio Santos. Foto: Reprodução/Twitter

Publicado originalmente no site Os Divergentes

POR HELENA CHAGAS

A nova política chegou. O Centrão amanheceu hoje comemorando seu primeiro ministério, obtido num salto triplo carpado de Jair Bolsonaro, que juntou Comunicação com Comunicações, fechou a aliança com o PSD de Gilberto Kassab e ainda agradou o empresário e showman Silvio Santos, que terá no comando da pasta o genro Fabio Faria. Até Rodrigo Maia elogiou a escolha, e na sequência de sua declaração da véspera de que “não é hora” para impeachment, deduz-se que a operação pode render algum respiro ao governo no Congresso.

Na outra ponta desse movimento, Bolsonaro parece ter tido a intenção de blindar a Secom, alvo agora de investigações relacionadas à destinação de verbas publicitárias para sites de fake news, numa estrutura ministerial com retaguarda política. Quando for convocado por CPIs e comissões que apuram o assunto, por exemplo, o secretário Wajngarten poderá ter o apoio da bancada do PSD e do Centrão. Da mesma forma, as investigações do STF sobre o tema vão ter que seguir os ritos e protocolos usados com ministros de Estado. Faria é agora o chefe direto do secretário.

O agrado a Silvio Santos é a cereja do bolo, e tudo indica que o nome de Faria foi uma escolha pessoal, e não uma nomeação de Kassab. Mas não faz mal. O presidente do PSD já ocupou, ele próprio, essa pasta, e conhece como poucos as vantagens políticas que pode oferecer. O leilão do 5G, os cargos nos Correios e na Telebras, as relações com as principais emissoras de TV, que terão suas concessões renovadas… Não é pouca coisa, e sem dúvida será o suficiente para fazer o coração de Kassab, ao menos momentaneamente, bater mais forte para Bolsonaro do que para o velho aliado João Doria.

Nada disso garante uma situação de estabilidade política para o Planalto a médio prazo. O PSD de Kassab é pragmático o suficiente para cair fora do barco na hora em que ele começar a afundar – como, aliás, fez no impeachment de Dilma Rousseff.

A grande curiosidade em Brasília hoje é se Wajngarten, que hoje despacha no Palácio do Planalto, vai levar o gabinete do ódio para a Esplanada dos Ministérios. Há rumores de que não, até porque, na prática, seus integrantes não se reportam ao chefe da Secom, mas sim ao vereador Carlos Bolsonaro – que pode até, quem sabe, vir a ganhar o espaçoso gabinete que vai ficar vago no segundo andar do Planalto.