CEO da Faria Lima critica “erro grotesco” do Banco Central com “juro alto”

Atualizado em 21 de abril de 2026 às 10:38
Cláudio Andrade, CEO da Polo Capital. Foto: Leo Pinheiro/Valor

O gestor Claudio Andrade, sócio-fundador da Polo Capital, fez duras críticas à política monetária conduzida pelo Banco Central e classificou como um “erro grotesco” o atual patamar dos juros no Brasil. A declaração foi dada em entrevista ao Intraday, do Valor Econômico, e reforça a pressão de parte do mercado financeiro contra a manutenção de uma taxa considerada excessivamente restritiva.

Segundo Andrade, o BC já passou do ponto em que juros elevados ajudam de forma efetiva no combate à inflação e agora produz efeitos colaterais relevantes sobre a economia. “Há um erro grotesco na condução da política monetária”, afirmou.

Para ele, o nível atual da taxa básica comprime a atividade econômica, sufoca empresas e reduz com força a margem de atuação no mercado de crédito, principalmente entre companhias mais expostas ao custo da dívida.

Na avaliação do gestor, o ambiente de juros altos prolongados faz com que empresas e investidores operem em estado de cautela extrema. Com custo de dívida perto de 17% ao ano, muitas companhias passam a trabalhar praticamente sem espaço para absorver desvios ou enfrentar imprevistos.

“Com juros nesse nível por tanto tempo, o espaço para erro desaparece”, disse. Ele observou que até empresas geradoras de caixa enfrentam dificuldade quando carregam estruturas de capital mais alavancadas, o que amplia o risco de reestruturação financeira.

Andrade também afirmou que o Brasil se tornou uma exceção no cenário internacional. “Não há outro país, há muito tempo, com uma taxa de juro real nos níveis do Brasil para um nível de inflação como o nosso”, declarou.

Gabriel Galípolo, presidente do BC. Foto: reprodução

Para ele, a inflação brasileira não está em um patamar tão distante de outros países latino-americanos, como o Chile, o que enfraquece a justificativa para manter juros tão elevados. O gestor ponderou ainda que o câmbio tem papel central na dinâmica inflacionária, embora seja um fator de difícil modelagem.

Outro ponto levantado por Andrade é que o aperto monetário excessivo pode produzir efeitos contrários no médio prazo. “É como uma torneira já fechada: continuar forçando não reduz mais o fluxo, apenas gera problemas em outros pontos”, explicou.

Segundo ele, juros muito altos desestimulam investimentos, prejudicam a expansão da oferta e podem pressionar a inflação no futuro. Além disso, o aumento da remuneração financeira também gera efeito renda sobre poupadores, estimulando consumo entre faixas de maior renda.

Ao tratar das contas públicas, o sócio-fundador da Polo Capital afirmou que a preocupação central não está apenas no tamanho da dívida, mas no peso dos juros sobre ela. “O ponto chave não é apenas o tamanho da dívida, mas o custo dela”, afirmou.

Já no diagnóstico estrutural do país, ele foi direto: “O principal problema do Brasil não é exatamente o fiscal, mas o crescimento”. Para Andrade, o país precisa priorizar produtividade e expansão da capacidade produtiva, já que o atual nível dos juros compromete crescimento, crédito e sustentabilidade fiscal.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.