Certa esquerda odeia o linguajar popular. Por Carlos Fernandes

Zéca Dirceu (PT) mitou

Quem é de fora da esquerda muitas vezes não entende os seus, muitas vezes acalorados, debates internos sobre os rumos a serem tomados de acordo com as não poucas vertentes ideológicas existentes em cada um dos partidos desse campo democrático.

Mas é de extrema importância que esses debates existam até porque celebram a pluralidade de ideias e evidenciam as diferentes formas de se enxergar o mundo – e a política – mesmo olhando a partir de um mesmo, digamos, cume filosófico.

O problema na verdade surge, no entanto, quando determinadas alas da esquerda, de uma certa forma escravas do academicismo teórico, perde a percepção de que a luta por uma sociedade mais justa não se dá exatamente nas bibliotecas das universidades.

É uma obviedade, mas como vivemos tempos em que as obviedades são postas em dúvidas, é preciso discutirmos.

Chega a assustar que alguns da esquerda torçam o nariz quando alguém desce do pedestal da argumentação acadêmica, e um tanto quanto elitista, para questionar os absurdos que nos são diariamente apresentados de uma forma que a grande massa popular possa realmente compreender como as coisas são dadas.

Foi exatamente o que ocorreu no embate entre o deputado do PT, Zeca Dirceu, e o ministro da economia, Paulo Guedes, na Comissão de Constituição e Justiça nessa quarta (03).

Abandonado pelo PSL e frente a uma oposição que se preparou previamente para confrontá-lo, Paulo Guedes sentiu na pele pela primeira vez de fato o quanto sua proposta terá dificuldades para ser aprovada.

Alvejado por todos os lados sem qualquer escudo que pudesse minimamente o proteger, paulatinamente foi mostrando o seu despreparo político e, sobretudo, a sua arrogância para o debate público.

Mas a coisa realmente desandou para o ministro quando Zeca Dirceu esfregou na sua cara, da forma mais escancarada possível, a forma como o ministro trata em sua reforma da Previdência específicos setores da sociedade. Lá pelas tantas afirmou ele categoricamente:

“… eu tô vendo ministro que o senhor é tigrão quando é com os aposentados, com os idosos, com os portadores de necessidade, o senhor é tigrão quando é com os agricultores, com os professores, mas é tchutchuca quando mexe com a turma mais privilegiada do nosso país …”

Foi o que precisou para que Paulo Guedes perdesse de vez as estribeiras e destilasse ódio gratuito para quem quisesse ouvir.

Obviamente não se defende aqui absolutamente a vulgarização no debate institucional e na maneira como representantes públicos devam se portar, mas o que Zeca Dirceu proporcionou foi a forma mais eficiente para que toda a população, sobretudo a de menor renda e menos escolarizada, pudesse entender claramente do que está se tratando na reforma previdenciária.

É claro que os acadêmicos da esquerda iriam adorar que o debate público fosse travado através dos questionamentos em relação aos cálculos atuariais, as discrepâncias dos dados apresentados da sobrevida após os 65 anos ou a metodologia utilizada para entender os censos disponíveis do envelhecimento da população brasileira.

Tudo isso, óbvio novamente, é de suma importância para o sério e elevado debate sobre a reforma da Previdência. O único problema é que escapa fatalmente a imensa maioria do povo brasileiro.

Não se pode querer uma mobilização popular nas ruas contra as atrocidades que estão propondo se aqueles que de fato irão as ruas não compreenderem o porquê de seu movimento.

E aí está o cerne da questão.

Infinitamente maior e mais abrangente do que qualquer tese rebuscada de doutorado em economia foi o paralelo criado por Zeca Dirceu ao afirmar que Paulo Guedes é um “tigrão” para os mais necessitados e uma “tchutchuca” para os mais privilegiados.

O termo caiu como uma luva para o ministro e movimentou as redes sociais, hoje poderosos instrumentos de fazer política. Foi essa única frase que ficou na cabeça do povo brasileiro num debate que já durava mais de 6 horas.

O estrago causado para o governo por essa única frase, aliás, pode ter sido muito maior do que tudo o que a esquerda conseguiu fazer até aqui em mais de três meses de desgoverno Bolsonaro.

Portanto, para mim, pelo menos, está claro que enquanto não entendermos definitivamente que os partidos de esquerda precisam urgentemente se reconectar com os excluídos, inclusive utilizando-se dos seus mais diferentes linguajares, mais difícil será a sua efetiva participação na construção de um novo país.

Isso em nenhum momento sugere deixar de lado o rigor acadêmico tão necessário para a correta compreensão de nossas mazelas.

Sugere apenas que podemos deixar de ser mais sisudos e construir uma revolução com a necessária e indispensável inclusão das favelas e de seus bailes funk’s.  

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