Cessar-fogo pode colapsar com ataques de Israel ao Líbano e bloqueio do Irã a petroleiros

Atualizado em 8 de abril de 2026 às 14:27
Fumaça se eleva de um edifício que foi alvo de um ataque israelense no bairro de Basta, em Beirute, nesta quarta (8). Foto: AFP

O cessar-fogo de duas semanas no conflito envolvendo o Irã passou a ser seriamente questionado nesta quarta-feira (8), após novos ataques militares e interpretações conflitantes sobre os termos do acordo. Enquanto Israel intensificou bombardeios no Líbano, o Irã interrompeu a passagem de petroleiros no Estreito de Ormuz, alegando violação da trégua por parte israelense.

Teerã e o Paquistão, responsáveis pela mediação do acordo de última hora, afirmam que o cessar-fogo inclui o Líbano. Já o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, discorda dessa interpretação. Na prática, forças israelenses lançaram o ataque mais intenso da guerra até agora, atingindo mais de 100 alvos e deixando ao menos 254 mortos.

Petróleo e tensão no Golfo

A agência iraniana Fars informou que petroleiros foram impedidos de atravessar o Estreito de Ormuz após o que chamou de “quebra do cessar-fogo” por Israel. O Irã havia prometido reabrir a rota durante a trégua, o que inicialmente fez o preço do petróleo cair abaixo de US$ 100 o barril e impulsionou bolsas globais.

Apesar disso, centenas de navios continuam parados no Golfo, aguardando autorização de seguradoras e enfrentando interferências em sistemas de navegação por satélite.

Ao mesmo tempo, os Emirados Árabes Unidos afirmaram ter interceptado 17 mísseis balísticos e 35 drones supostamente lançados pelo Irã após o anúncio da trégua. Também há relatos de ataques iranianos a um oleoduto saudita rumo ao Mar Vermelho.

Disputa de narrativas entre EUA e Irã

O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou versões contraditórias do acordo. Inicialmente, disse que a base era uma proposta iraniana de 10 pontos, incluindo a reabertura do Estreito de Ormuz. Posteriormente, afirmou que o cessar-fogo se baseava em um plano americano de 15 pontos, rejeitando o enriquecimento de urânio.

As propostas divergem profundamente. O plano iraniano inclui:

  • Direito ao enriquecimento de urânio
  • Suspensão total das sanções
  • Reparações de guerra
  • Controle conjunto do Estreito de Ormuz com Omã

Trump, por outro lado, afirmou que os EUA trabalhariam para eliminar o estoque iraniano de urânio altamente enriquecido — cerca de 440 kg, suficiente para várias ogivas nucleares.

Estreito de Ormuz vira ponto central

Navio petroleiro no Estreito de Ormuz. Foto: Reprodução

O Irã fechou o Estreito de Ormuz após ataques dos EUA e de Israel em fevereiro e agora cobra cerca de US$ 2 milhões por navio para permitir a passagem. A tendência, segundo Teerã, é manter a cobrança mesmo durante o cessar-fogo, possivelmente dividindo receitas com Omã.

O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, confirmou que a rota poderia ser reaberta, mas com controle militar iraniano sobre a autorização de tráfego.

Trégua frágil e risco de nova escalada

Autoridades americanas classificaram a situação como extremamente instável. O vice-presidente JD Vance pediu negociações “de boa-fé”, enquanto o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que os EUA podem agir militarmente para eliminar o estoque nuclear iraniano caso não haja acordo.

O chefe do Estado-Maior conjunto, general Dan Caine, reforçou que as forças americanas permanecem prontas para retomar o combate a qualquer momento.

Negociações mediadas pelo Paquistão estão previstas para sexta-feira, mas a participação dos EUA ainda não foi confirmada.

Guerra de versões e propaganda

Tanto Washington quanto Teerã adotaram discursos triunfalistas. Autoridades americanas alegam ter destruído grande parte da capacidade militar iraniana, enquanto líderes iranianos afirmam que os EUA foram “forçados” a aceitar o cessar-fogo.

O cenário, porém, aponta para o oposto: uma trégua frágil, cheia de lacunas e com alto risco de colapso.

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