Chamado de “golpista” e com a cabeça a prêmio, Alexandre de Moraes tem dia de popstar em faculdade. Por Zambarda

Moraes na faculdade
Moraes na faculdade

 

No dia 21 de outubro, uma sexta-feira, a FMU do bairro da Liberdade em São Paulo recebeu o ministro da Justiça do governo Temer, Alexandre de Moraes. Ex-professor da faculdade de Direito, ele foi elogiado pela coordenação do curso e pela reitoria. “Foi o primeiro lugar no concurso público”, juraram.

Tratado como superstar, Moraes veio acompanhado de uma assessora de imprensa e três seguranças. Discursou por 40 minutos sobre “Constituição e Cidadania” na Semana Jurídica Acadêmica. O auditório lotou e estudantes insatisfeitos ficaram do lado de fora.

“Nem sempre a lei e a justiça andam juntas. Nós tivemos na ditadura militar uma Constituição, mas interpretação de direitos fundamentais eram normas sem efetividade real”, disse o ministro que foi secretário de Alckmin na repressão aos manifestantes e secundaristas entre 2014 e 2016. Arrogante, ele disse que vivemos em pleno Estado de Direito, embora não reconheça e nem faça autocrítica da Polícia Militar sob sua gestão.

Falou sobre os direitos LGBTs reconhecidos pelo Supremo Tribunal Federal na união de pessoas do mesmo sexo e das minorias, mas não deu um pio sobre os excessos das polícias.

Do lado de fora, gritos abafados de estudantes da FMU: “Queremos entrar! Queremos entrar!”. Dentro do recinto, os que conseguiram assistir a apresentação nas primeiras fileiras tiravam sarro dos excluídos. “Vão entrar pra quê? Pra chamar ele de golpista? Não existe governo golpista”.

Foi inútil. Alguém gritou, perto do fim da fala do ministro de Temer: “Fora, golpista!”.

Moraes recebeu perguntas do DCM antes dos demais jornalistas presentes no evento, por escrito. Ao lê-las, contou para a assessora que pretendia não responder ninguém. Os repórteres protestaram e permaneceram no local até ter uma resposta.

O ministro de Temer então tirou fotos com os estudantes presentes. De acordo com a FMU, por ser um evento acadêmico, ele não foi pago pelo trabalho.

Ao ser perguntado no evento da faculdade sobre a reação do presidente do Senado, Renan Calheiros, quando Moraes disse que os policiais legislativos “extrapolaram” ao retirar escutas importantes para a Operação Lava Jato, ele disse que desconhecia as declarações.

“Eu disse que, em tese, a prisão foi decretada porque tanto o Ministério Público quanto o Poder Judiciário entenderam que houve por parte de quatro pessoas um desvio de finalidade”, disse o ministro. Ela alega que respondeu isso ao ser questionado se existe alguma briga entre a Polícia do Senado e a Polícia Federal.

Renan disse na sexta-feira e repetiu numa coletiva dada a jornalistas que Alexandre de Moraes “não tem se comportado como ministro de Estado, falando mais do que devia, dando bom dia a cavalo”.

O DCM perguntou a Moraes se ele não tem medo de ser exonerado depois da repercussão negativa de suas declarações.

“Eu nem estava sabendo das declarações [do presidente do Senado, Renan Calheiros] e eu preciso lê-las. Eu saí de uma cerimônia em Brasília, peguei um avião para vir até este evento em São Paulo e não fazia ideia do que foi dito sobre mim”, respondeu.

“Minha declaração pode ter chegado, ou frases dela deturpadas, para ele [Renan]. Basta ver o que foi dito tanto por mim quanto pelo diretor da Polícia Federal para verificar, e eu reafirmo aqui, que não há nenhum problema da PF em relação à Polícia do Senado. Não fui eu que decretei as prisões e a polícia investigou através de um agente deles que entendeu existir desvio de finalidade”.

Moraes também disse que problemas de integrantes isolados não contaminam a instituição. No entanto, ele tem comentado as operações da Polícia Federal diretamente com a imprensa.

Apesar de querer passar a sensação de que está tudo bem, o ministro teve que se reunir com o presidente Temer no domingo (23) para explicar a Operação Métis, que prendeu quatro policiais legislativos da Casa presidida por Renan.

Há um mês ele irritou Michel Temer ao antecipar, em Ribeirão Preto, a operação da Polícia Federal que prendeu o ex-ministro Antonio Palocci. Moraes falou que as pessoas lembrariam dele na operação no palanque do candidato Duarte Nogueira (PSDB), candidato a prefeito.

Língua solta, Alexandre de Moraes faz de conta que não é nada com ele, mas provoca um clima de mal-estar no Planalto ao sabotar os próprios aliados do presidente golpista. Diz que não leu as declarações na imprensa e especula que elas foram deturpadas.

Renan Calheiros pede, nas entrelinhas, a cabeça do ministro da Justiça.

moraes fmu

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