Chamem Borat de volta: “O Ditador” matou a graça de Sacha Baron Cohen

Sacha Baron Cohen a caráter no Oscar: as aparições-surpresa foram mais engraçadas que o filme

Sacha Baron Cohen perdeu a graça. Não totalmente. Mas a parte principal, que vinha com a coragem e a necessidade de incomodar. Os melhores momentos de O Ditador aconteceram nas aparições públicas promocionais de Cohen, quando ele deu entrevistas e apareceu no Oscar no figurino do personagem, o “almirante general” Aladeen.

Aladeen governa Wadiya, um país da África do Norte. Ele vai discursar na ONU sobre as denúncias de abusos dos direitos humanos. Lá, é substituído por um sósia fantoche (o próprio Cohen), um panaca manipulado pelo tio de Aladeen, Tamir (Ben Kingsley), e é obrigado a se virar.

Em Nova York, conhece uma jovem ativista, Zoey, que lhe apresenta o mundo dos produtos orgânicos, dos refugiados e do amor. Pronto. No meio disso, claro, há algumas boas piadas: os apelidos misóginos que ele dá para Zoey (Hobbit lésbico, por exemplo), bem como a sequencia em que é reconhecido num restaurante por seus antigos inimigos e se vê obrigado a inventar um nome olhando os cartazes do lugar, como Ladies’ Washroom.

O Ditador é uma comédia romântica sem brilho. Cohen não choca ninguém, não provoca o riso nervoso ou as gargalhadas de Borat ou mesmo de Brüno, seus trabalhos anteriores. De cara, Aladeen avisa que não é árabe, um jeito de a produção não ser acusada de anti-muçulmana. No final, em seu discurso na ONU, ele dá um recado pretensamente critico sobre a política americana. Ou seja, fica bem com todo o mundo.

O inglês Sacha Baron Cohen é tremendamente talentoso. A genialidade de Borat estava na forma — um documentário fake — e, sobretudo, em não poupar nada e nem ninguém. As feministas americanas, o Cazaquistão, os sulistas… tudo num rolo compressor em que você ria, sobretudo, de coisas que você achava que não eram engraçadas – eventualmente, do seu próprio preconceito. Era grosseiro e sutil ao mesmo tempo.

É óbvio que ele não precisa repetir essa formula porque ela se esgota. Mas Cohen não precisava perder a originalidade. Deram a um homem engraçado um orçamento milionário e pediram a ele que fizesse um filme que agradasse a todos, não ofendesse absolutamente ninguém e tivesse um final feliz. O resultado é O Ditador. Numa entrevista recente para a Folha de S.Paulo, Cohen afirmou que ficou aliviado quando soube que o líbio Muammar Gadafi, uma das inspirações para seu personagem, havia sido morto pouco antes do lançamento. “Quando escrevemos o filme, ele era um sujeito perigoso”, conta. “Então, fizemos um comunicado dizendo que O Ditador era inspirado em Saddam. Não queria acordar com uma bomba na porta”.

Uma comédia que, antes de estrear, já vem com um pedido de desculpas, não pode dar muito certo.