Chauí ao DCM: “Temos um ‘golpe sem cabeça’, com poderes que lutam entre si”. Por José Cássio

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Em participação no programa “Mariana Godoy Entrevista” (Rede TV) nesta sexta, 15, o primeiro-secretário da Câmara, Beto Mansur, reiterou a intenção do governo interino de Michel Temer de realizar mudanças nas Leis Trabalhistas, com foco na terceirização da mão de obra e na definição da idade mínima de 67 anos para a aposentadoria.

O deputado federal pelo PRB alegou que Brasil precisa de produtividade, por isso a necessidade de modificar a relação entre empresários e trabalhadores e ajustar as contas da previdência social.

Essa pauta é, na opinião da filósofa Marilena Chaui, a consequência mais nefasta do golpe em curso no Brasil. “Tenho pena dos jovens”, disse a professora em entrevista por telefone ao DCM, neste sábado, 16.

“O que estamos assistindo no país, esse acerto de contas com o neoliberalismo, é um retrocesso ao século 19, com o agravante de que as pessoas só vão perceber os efeitos daqui a alguns anos”.

Segundo Marilena Chauí, “imaginar que será possível negociar individualmente com os patrões, sem precisar da CLT, é uma análise equivocada, um brutal retrocesso nos direitos sociais”.

Sem acompanhar o que acontece no Brasil pela mídia deste o início dos anos 2000 – “não assino jornais e revistas, não ouço rádio nem vejo TV” -, a professora tem percorrido os estados para palestras em que fala sobre o que chama de desinstitucionalização do país.

“O que estamos assistindo é um ‘golpe sem cabeça’”, define. “Poderes que lutam entre si e não são reconhecidos pela sociedade. E todos, mídia, justiça, legislativo e executivo brigando por sua fatia no bolo de interesses”.

A filósofa conta que o lado positivo da crise é o ressurgimento dos movimentos sociais. “Desde os anos 80 eu não via tanta efervescência”, diz ela, citando o grupo dos secundaristas como um dos mais inovadores.

“Não sabemos onde tudo isso vai dar, mas basta acessar a internet para notar que os jovens estão atentos ao que acontece e mais participativos do que nunca”.

A professora rechaça com vigor a tese de que a população está apática com relação ao golpe contra a democracia e os 54 milhões de eleitores que votaram em Dilma e estão tendo de engolir Michel Temer.

“Nisso a mídia foi competente”, diz ela, lembrando que o país vive uma dominação ideológica de direita e que a violência é uma marca dos usurpadores. “Experimente dizer que você é do PT: corre o risco de ser atacado em público. É uma intolerância fascista que, confesso, eu desconhecia”.

Sobre a tentativa frustrada de golpe de estado na Turquia, deflagrado neste fim de semana, a professora lembra que se trata de mais um capítulo na crise geo-política.

“O quadro mostra a fragmentação dos sistemas a partir da falência do capitalismo como modelo dominante”, diz Marilena Chauí. “Veja o que aconteceu na Inglaterra: um dia após o plebiscito que definiu pela saída da União Europeia já havia gente pedindo nova votação para reverter a decisão. Uma exasperação que ninguém sabe onde vai dar”.

O estado de coisas no Brasil reflete a desestabilização da Europa, diz a professora. “A desinstitucionalização que estamos vivenciando não é só desalentadora; ela é também perigosa”, conclui.

Temer, Beto Mansur e seus asseclas estão aí para não deixá-la mentir.

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