Choro e revolta: funeral de criança libanesa assassinada em ataque israelense gera comoção

Atualizado em 29 de março de 2026 às 12:41
Jawad Younes, de 11 anos, morto por forças israelenses. Reprodução

O funeral de Jawad Younes, de 11 anos, e seu tio Ragheb Younes, de 41, ocorreu no vilarejo de Saksakiyeh, no sul do Líbano, neste sábado (28), após serem mortos em um ataque aéreo israelense. Ambos estavam em casa quando o complexo residencial da família foi atingido no dia anterior. A tragédia ocorreu no contexto da escalada de violência entre Israel e o Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã. As autoridades libanesas afirmam que o número de vítimas fatais no país já ultrapassa 1.100 desde o início da ofensiva. Com informações da BBC Brasil.

O funeral foi marcado por grande comoção, com centenas de pessoas reunidas no centro da cidade para prestar suas últimas homenagens. Mulheres em luto, vestidas com túnicas negras, lamentavam a perda dos entes queridos, enquanto o corpo de Ragheb Younes estava coberto pela bandeira amarela do Hezbollah, refletindo o apoio do grupo na região majoritariamente xiita. A mãe de Jawad, Malak Meslmani, sentou-se ao lado do corpo do filho e, entre lágrimas, afirmou que ele “era gentil e puro” e tinha o sonho de se juntar à resistência quando crescesse.

Em meio ao luto, Malak descreveu como seu filho queria “resistir ao inimigo Israel”, e disse que ele acreditava em martírio. “Ele queria resistir ao inimigo Israel que o matou”, disse a mãe. A dor da perda foi ainda maior ao ouvir o som de ataques aéreos israelenses ecoando ao longe, enquanto a procissão funerária seguia em direção ao local do enterro. O ataque que matou Jawad e Ragheb ocorreu por volta das 13h00 (hora local) de sexta-feira (27), enquanto Jawad jogava futebol com nove primos.

O pai de Jawad, Hussein Younes, disse à BBC que, no momento do ataque, seu filho estava com os primos no quintal, brincando tranquilamente. “Se isso fosse uma base militar, não haveria crianças aqui”, afirmou Hussein, visivelmente revoltado com a situação. A família Younes nega qualquer envolvimento com o Hezbollah e questiona o motivo do ataque. Hussein ergueu as mãos para o céu e gritou: “Eu não sei! Eu não sei!” quando foi questionado sobre o motivo da bomba atingir a residência.

Manifestantes em ato, no sul do Líbano – Foto: reprodução

Zeinab, tia de Jawad, também sobreviveu ao ataque, mas foi gravemente ferida, sofrendo fraturas na coluna e na perna. Ela estava em casa no momento do bombardeio e foi retirada dos escombros. “Não vimos nada e não ouvimos nada… Depois, me encontrei debaixo de um monte de escombros”, contou Zeinab de sua cama de hospital. Apesar das graves lesões, ela está sendo tratada e os médicos têm esperança de que ela recupere a mobilidade, embora precise de cirurgias extensas.

A morte de Jawad e Ragheb Younes ocorreu apenas um dia depois que outra família no mesmo bairro também enterrou duas crianças e a mãe delas, vítimas de bombardeios israelenses. O ataque faz parte de uma onda de agressões a civis no sul do Líbano, onde os conflitos com o Hezbollah têm resultado em vítimas inocentes. Além disso, neste sábado, três jornalistas libaneses foram mortos em um ataque israelense direcionado contra o veículo de imprensa em que estavam, segundo seus empregadores.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros grupos humanitários têm alertado sobre os ataques repetidos a profissionais de saúde no Líbano, com cinco paramédicos mortos em um ataque aéreo israelense em Zoutar. A situação continua a se agravar, e a ONU alerta para uma crise humanitária crescente, com mais de um milhão de pessoas deslocadas no país. A violência no Líbano se intensifica, enquanto as promessas de cessar-fogo e a busca por uma solução pacífica parecem cada vez mais distantes.

O ciclo de violência entre Israel e Hezbollah não dá sinais de cessar, e os civis continuam a pagar o preço, com centenas de mortos e feridos. Em meio a esse cenário devastador, os sobreviventes e os familiares das vítimas, como os da família Younes, afirmam que não têm medo da guerra e estão dispostos a lutar pela resistência. A dor da perda é profunda, mas a luta pela justiça e pela paz persiste, enquanto o Líbano enfrenta uma das piores crises humanitárias de sua história.