Churrascarias e restaurantes de SP mantêm trabalhadores em condições análogas à escravidão

Atualizado em 7 de janeiro de 2026 às 15:28
Colchão sobre caixotes de cervejas improvisados como camas. Foto: Vinícius Mendes/BBC

Em São Paulo, denúncias de trabalhadores sendo mantidos em condições análogas à escravidão em churrascarias e restaurantes japoneses têm se multiplicado, com destaque para o caso da Boizão Grill, onde funcionários foram resgatados por autoridades após viverem em condições precárias e insalubres.

Wellington, um maranhense de 26 anos, foi atraído para a capital paulista por uma agência de empregos que prometia benefícios, como moradia subsidiada e refeições. No entanto, ao chegar ao local, se deparou com uma realidade muito mais dura, incluindo jornadas exaustivas e condições de vida degradantes no alojamento, que mais parecia um presídio.

Ele havia se mudado para um sobrado com outros 11 trabalhadores, sendo forçado a compartilhar o dormitório com três pessoas. Sua saúde piorou rapidamente e, após uma semana de trabalho, ele ficou doente e teve que se afastar, mas não recebeu o pagamento correspondente aos dias em que esteve fora.

Durante seu período de doença, a alimentação foi limitada a biscoitos e café, enquanto ele continuava morando no alojamento, sem conseguir recursos para voltar para casa. O restaurante alegou não ter vínculo empregatício com ele, embora o Ministério Público do Trabalho tenha identificado o estabelecimento como responsável por manter trabalhadores nessas condições.

A Boizão Grill, que oferece rodízio de carne por R$ 170, foi alvo de uma operação da força-tarefa do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que confirmou as acusações feitas por trabalhadores. Um ex-garçom, demitido meses antes, relatou que viveu no mesmo alojamento por seis meses, enfrentando falta de higiene e convivendo com picadas de percevejos.

O trabalhador também reclamou de jornadas excessivas e do fato de que muitos empregados estavam em “período de experiência”, mas não tinham a carteira assinada, o que é ilegal de acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Imóvel onde viviam 12 trabalhadores em condições análogas à escravidão. Foto: Vinícius Mendes/BBC

Desde 2022, as denúncias de trabalho escravo em restaurantes aumentaram substancialmente, com 152 resgates registrados entre 2022 e setembro de 2025, sendo a maioria em São Paulo. A mudança no perfil dos trabalhadores, com um aumento no número de nordestinos recrutados, está relacionada à desigualdade socioeconômica dessas regiões, que deixa os trabalhadores mais vulneráveis à exploração.

As condições de trabalho degradantes incluem não apenas jornadas exaustivas, mas também alojamentos insalubres, com colchões infestados de percevejos, ausência de condições mínimas de higiene e até risco de violência entre os próprios trabalhadores.

Os fiscalizadores apontam que, além de resgatar os trabalhadores, as operações ajudam a conscientizar a população sobre a gravidade do problema. No entanto, o número de denúncias e resgates ainda é muito inferior ao real volume de casos, com muitos trabalhadores temendo represálias e demissões se denunciarem as condições em que vivem.

A situação dos alojamentos encontrados pela força-tarefa é descrita como um reflexo das condições de trabalho desumanas a que muitos são submetidos. Além de fatores como a superlotação, falta de higiene e riscos à saúde, os trabalhadores vivem com o medo constante de represálias e com a sensação de que estão “presos” ao local de trabalho.

Isso ocorre porque, ao oferecer moradia e refeições, os restaurantes mantêm os funcionários longe de casa e, frequentemente, sem opções viáveis de alternativas de trabalho.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.